Livros

Dia Mundial da Poesia (e outras poesias)

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Este ano, pelo menos na poesia, os prémios SPA fizeram gazeta ao punho no ar e ao beijinho no anel e meteu-se-lhes ar feito puro nas narinas, brisa bem boa para os neurónios (embora o desafio, pelas edições que vejo sair, seja verdadeiramente o próximo…).

A Andreia foi de Ouro, a Rosa Oliveira de prata e não há homens poetas para colocar um ponto final neste absurdo, desculpem, absoluto feminino. Mas podia ter sido a Tatiana Faia ou a Sandra Andrade.

Há homens que também me fariam sorrir (Luís Quintais, Daniel Jonas, José Miguel Silva, Miguel-Manso…) e continuar a mostrar este branco dos dentes, mas satisfaço-me muito com o prémio a estas aparências que iludem e à força bruta das lacerações e das arestas bem limadas. E ainda por cima ela é do Porto! Pareço o amante, eu sei, mas é isso mesmo que este Dia Mundial da Poesia pede; amantes, não adeptos.

Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada.
Esse edifício junto à praia, deixai-o
entregue às ruínas,
às folhas do milho,
ao ar salgado.
Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.
Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.
Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.
Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.
E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.
Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.
Ainda são preciosos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.
(Tão bela como qualquer rapaz, de Andreia C. Faria, edição: Língua Morta, fevereiro de 2017, pp. 54-55.)

Mais geral e particular para o dia, Herberto Helder:

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Toda a poesia é insolúvel: (…) Não lhe falta nem lhe sobra o mundo, nem é a contradição do mundo aquilo que a embaraça. (…) O silêncio não traduz apenas a renúncia, mas a ruptura entre o mundo como linguagem e a linguagem como mundo. O que se não exprime forçosamente pela ausência do dizer. Não será essa, mesmo, uma condição do dizer? 
(Herberto Helder, «Nota Inútil», prefácio a António José Forte, Uma Faca nos Dentes)

Música

Somos apenas turistas

Catorze anos desde Grown Backwards (2004) já se pode ouvir o novo trabalho de David Byrne. Este American Utopia é apresentado pelo single “Everybody’s Coming To My House”, escrito em colaboração com Brian Eno, para a esfuziante alegria da nossa pobre condição humana. Talvez, por isso, o conceito visual do teledisco vá desenhando vários Byrnes até que tudo se confundirá num emaranhado de riscos. Não parece menos que maravilhosa esta proposta de viagem pelas convulsões do nosso tempo, não só com Brian Eno, mas também com Daniel Lopatin e Sampha entre outros, ninguém podendo dizer que o título do álbum não é esclarecedor.

I wish I was a camera
I wish I was a postcard
I welcome you to my house
You didn’t have to go far

A house and a garden
There are plants and trees
Make a closer inspection
If you get — get down on your knees
Now ev’rybody’s comin to my house
And I’m never gonna be alone
And ev’rybody’s comin’ to my house
And they’re never gonna go back home 

I’m pointing and describing
And I can be your guide
The skin is just a roadmap
The view is very nice 

Imagine looking at a picture
Imagine driving in a car
Imagine rolling down the window
Imagine opening the door 

Ev’rybody’s comin’ to my house
Ev’rybody’s comin’ to my house
I’m never gonna be alone
And they’re never gonna go back home 

We’re only tourists in this life
Only tourists but the view is nice
And we’re never gonna go back home
No we’re never gonna go back home (all right)
We’re only tourists in this life
Only tourists but the view is nice
Now ev’rybody’s comin to my house
And I’m never gonna be alone
And ev’rybody’s comin’ to my house
And they’re never gonna go back home
Ev’rybody’s comin’ to my house
Ev’rybody’s comin’ to my house
I’m never gonna be alone
And I’m never gonna go back home.

Poesia

Stephen Hawking (1942-2018)

1hawkingillo-master768-v2.jpgIssac Newton não era um homem agradável, mas Stephen Hawking compensou largamente essa fatalidade. Além disso, tinha uma justificação muito satisfatória para nunca se ter cruzado com um ser do futuro. Tinha, também, 76 anos. Foi matemático, físico e o cosmologista mais conhecido em todo o mundo, infelizmente pela pior razão: a esclerose lateral amiotrófica de que sofria desde 1963. A doença não o impediu de prosseguir investigações e escrever dezasseis livros (sendo quatro de literatura para crianças) e de participar no álbum The Division Bell (1994), dos Pink Floyd. Tinha o sonho de experimentar a gravidade zero e a empresa Zero Gravity Corp proporcionou-lhe, em 2007, oito mergulhos parabólicos efectuados num avião especial. Casou duas vezes e foi pai de três filhos. A primeira mulher, Jane Hawking, professora, manteve uma relação extra-conjugal consentida e escreveu dois livros sobre a sua vida com Hawking. A segunda, Elaine Mason, enfermeira, foi acusada de abuso sobre o marido, mas Hawking não apresentou queixa. Preferiu divorciar-se e voltar para Jane. Num misto de criança espantada e genial intelectual estudou muito para nos dizer isto, que ainda não compreendemos bem: este não seria um grande universo se não fosse a casa das pessoas que amamos.

“Encontramo-nos num mundo desconcertante. Queremos que o que nos rodeia faça sentido e perguntamos: Qual a natureza do universo? Qual é o nosso lugar universo e donde provieram todas as pessoas? Porque é o universo como é?” (Breve História do Tempo – Edição Comemorativa do 10º Aniversário, de Stephen Hawking, tradução: Maria Alice Gomes da Costa, edição: Gradiva, abril de 2000, p.209)

Mas há mais a dizer.
Armando Silva Carvalho, sempre essencial (et parce que les beaux esprits se rencontrent), escreveu isto:

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?
100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar meta-estável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.
Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.
Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham de deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez o único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.
É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.
Abençoado profeta, só eu não sei por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história,
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor do universo.

(A Sombra do Mar, 2015)

Música

Gravação inédita de Amy Winehouse

A Universal garantiu ter destruído todas gravações não editadas de Amy Winehouse (1983-2011), de modo a evitar explorações abusivas da sua herança, mas cá está uma. Datada de 2001, quando Winehouse tinha 17 anos, a canção, intitulada My Own Way, foi divulgada pelo músico londrino Gil Cang que a fez em sua casa. Diria: pronta a editar.

Música

“Avant-pop” para maiores de 18

Reflexão sobre a apropriação cultural, em exuberante caldo avant-pop, feito das melhores linhas de baixo da “antiguidade” e sem exalar qualquer odor a naftalina:

“The music never answered the question, ‘What should I do?’ In fact, it hasn’t provided any answers thus far. It does not answer the uncomfortable question about the role of art and artists in things such as dismantling racism, combating oppression, or halting climate change. I hope this album, which I am deeply proud of and consider our best, reaches people like our music hasn’t before. And I wonder, can it do so without erasing the work of others? I wonder if it can do so without reeking of the white supremacy and privilege that it intends to investigate. This album is what it is: a vessel for a cisgender, white woman in a heteronormative relationship to explore her place in the world. A vessel for exploring, out loud, the very concrete reasons why it’s this band, and not another, whose music you’re being offered by a record label. And I cherish this vessel” (Merrill Garbus/Tune-Yards)

Livros

O filme não é tudo

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Não escreve “o melhor filme”, “o melhor realizador”, etc…, e também não nos dá “terra à vista” quando, invariavelmente, nos seus textos, nos põe a “nadar”. Este livro colige uma série de texto publicados em revistas e em sites e é escrita sobre filmes que não se alimenta só do filme mas das imagens e do cinema, o que quer dizer, da “forma-cinema”, o que passo já a explicar melhor:

A poesia resulta da decomposição do pensamento. O cinema é a exteriorização e visualização disso (sonhos, memórias do túmulo).
Assim, “poesia” é o nome que dou a certas perturbações que em mim provocam as palavras (os mortos) e de que eu sou o local de encontro, hospedeiro e o portador. Ao fim e ao cabo, procuro provocar pelas palavras ou fazer que em mim aconteçam as transformações que Carpenter ou Cronenberg produzem nos seus filmes.

(Imagens Roubadas, de Fernando Guerreiro, edição: Enfermaria 6, novembro de 2017, p.50)

Livros

206 anos de comédia

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Conta a lenda que houve um ou dois leitores a quem rebentaram os vasos sanguíneo de tanto rir e os amigos lamentaram a sua sorte quando o médico os proibiu de prosseguir a leitura. E que Fernando Pessoa lamentava já ter lido este Pickwick por não poder voltar a lê-lo pela primeira vez. É claro que é tudo mentira. Já o que Chesterton disse, há registo: “Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia”. Porém, o que eu desejava lembrar, neste 206º aniversário de CHARLES DICKENS, é que, de entre todos os “grandes” livros e de entre todos os “enormes” escritores, este recolhe a minha preferência para o pior parágrafo inicial de que há relato, não querendo menosprezar as restantes 934 páginas de elevada categoria.

“O primeiro raio de luz que ilumina as trevas, convertendo num brilho ofuscante a obscuridade a que parecia votada a história remota da carreira pública do imortal Pickwick, deriva da consulta do seguinte assento do Livro de Actas do Clube Pickwick, cuja exposição aos olhos do leitor é do maior agrado do editor destes documentos, enquanto testemunho da cuidada atenção, da infatigável diligência e do criterioso discernimento com que conduziu a sua investigação por entre os variadíssimos papéis que lhe foram confiados.”

(Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, tradução: Margarida Vale de Gato, ilustração: Robert Seymour, edição: Tinta da China, março de 2012, p.33)

Música

35 anos de eloquência

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Quem é que ouviu Ian McCulloch a cantar isto?

“Hey now David Bowie
Thanks for all you showed me
Like how to smoke a cigarette better than anyone
And how to wear my overcoat so cool that I could freeze the sun
The school of David Bowie
Was where I learnt to know me”?

Não tendo os 35 anos que hoje faz Porcupine, ou a sua rasgada veia eléctrica, achei interessante mostra-vos onde entendo que os Echo & the Bunnymen foram buscar tão longa eloquência.