Livros

Viver com os Gregos

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É um extraordinário texto de Hélia Correia, publicado no JL, sobre Frederico Lourenço. Como se diz na introdução: “Não é de solidão que aqui se fala, é de um reforço de resiliência, de um conjunto excepcional de circunstâncias e de vontade que sustêm um projecto.”

“A doutora Maria Helena da Rocha Pereira, a quem ouvi raríssimas – por isso mais valiosas – palavras de absoluto louvor às traduções homéricas do Frederico, disse um dia estas duas curtas frases que contêm milhares de livros dentro: “Eu vivo com os Gregos e sei disso. Mas vocês vivem com os Gregos e não sabem”. Adoentada, apenas oralmente e aos mais próximos transmitiu o seu júbilo pela atribuição do prémio. Um júbilo comum a todos nós.

O Frederico Lourenço é um conforto nos nossos tempos tão ameaçados. Quando a iminência da destruição de tudo o que foi belo e bom e justo sopra a sua trombeta à nossa porta, vemos este homem, que parece tranquilo, prosseguir a sua caminhada entre explosões.

Não é de solidão que aqui se fala, é de um reforço de resiliência, de um conjunto excecional de circunstâncias e de vontade que sustêm um projecto. Outros podem, como ele, ter desfrutado de uma formação privilegiada, de um ambiente humano e escolar de alta estirpe. Mas o Frederico não tomou apenas os ares da Academia ainda que os tenha respirado muito. Corre nele um fortíssimo oxigénio, o vento árduo e melódico da Grécia que empurra para o sol e para a partilha.

Este homem é, de facto, admirável no seu saber, na sua erudição. Mas o que o torna único e enorme e de tal modo grego que nos leva quase a descrer de uma existência assim é a disposição para se tornar o transmissor da grande luz dos textos. E grego não apenas na intenção mas também na extensão, pois que convivem nele música e dança, narração e poema, tudo o que era então uno e agradava, de igual maneira, aos deuses e aos mortais.

A especialização, bem intencionada, acabou por gerar ciências míopes e sofre finalmente reações. Os jovens neurocientistas acham-se hoje interessados nos estudos literários. Mas esta espécie de emenda pede tempo e o tempo anda a mover-se contra nós. O campo criativo do Frederico – que inclui a sua obra de tradutor – não mostra, creio, uma amplidão deliberada mas sim um ato de respiração, uma medida limpa e natural. Ele fez a tese de doutoramento sobre a métrica de Eurípides, o que exigia conhecimento não apenas profundo e completíssimo mas o ouvido ligado a um som extinto, um som que poucos podem alcançar. Afirma ele que o grego da Bíblia é grego puro. Se o Frederico assim o diz, está dito. Fico à espera do Velho Testamento.

Costumo comparar os tradutores a pessoas bondosas que nos trazem nas mãos nuas e em concha a água de uma fonte que se mantém, para o vulgo, inacessível. O Frederico não cessa de acartar e de salvar um pouco os nossos dias.

Pessoa não seria Pessoa se as peripécias da sua vida o não tivessem levado à frequência de um colégio inglês. É a doutora Rocha Pereira que o afirma numa tese não muito divulgada. Refere-se à base de estudos greco-latinos que faziam com que naqueles anos os meninos de educação britânica traduzissem Homero aos 11 anos. Na África do Sul o ensino não seria tão esplêndido talvez, mas os clássicos estavam, certamente, numa primeira linha do programa.

Não sei o que terá lido Pessoa em Durban. Na sua biblioteca, existe Homero em francês e inglês. Só a um desencontro temporal se deve lá não estarem os livros do Frederico”.

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© Hélia Correia, em “Jornal de Letras”, 2017

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