Livros

206 anos de comédia

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Conta a lenda que houve um ou dois leitores a quem rebentaram os vasos sanguíneo de tanto rir e os amigos lamentaram a sua sorte quando o médico os proibiu de prosseguir a leitura. E que Fernando Pessoa lamentava já ter lido este Pickwick por não poder voltar a lê-lo pela primeira vez. É claro que é tudo mentira. Já o que Chesterton disse, há registo: “Dickens não escreveu exactamente literatura; escreveu mitologia”. Porém, o que eu desejava lembrar, neste 206º aniversário de CHARLES DICKENS, é que, de entre todos os “grandes” livros e de entre todos os “enormes” escritores, este recolhe a minha preferência para o pior parágrafo inicial de que há relato, não querendo menosprezar as restantes 934 páginas de elevada categoria.

“O primeiro raio de luz que ilumina as trevas, convertendo num brilho ofuscante a obscuridade a que parecia votada a história remota da carreira pública do imortal Pickwick, deriva da consulta do seguinte assento do Livro de Actas do Clube Pickwick, cuja exposição aos olhos do leitor é do maior agrado do editor destes documentos, enquanto testemunho da cuidada atenção, da infatigável diligência e do criterioso discernimento com que conduziu a sua investigação por entre os variadíssimos papéis que lhe foram confiados.”

(Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, tradução: Margarida Vale de Gato, ilustração: Robert Seymour, edição: Tinta da China, março de 2012, p.33)

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