Livros

Dia Mundial da Poesia (e outras poesias)

29496274_10212075498868170_874640261282529280_o.jpg

Este ano, pelo menos na poesia, os prémios SPA fizeram gazeta ao punho no ar e ao beijinho no anel e meteu-se-lhes ar feito puro nas narinas, brisa bem boa para os neurónios (embora o desafio, pelas edições que vejo sair, seja verdadeiramente o próximo…).

A Andreia foi de Ouro, a Rosa Oliveira de prata e não há homens poetas para colocar um ponto final neste absurdo, desculpem, absoluto feminino. Mas podia ter sido a Tatiana Faia ou a Sandra Andrade.

Há homens que também me fariam sorrir (Luís Quintais, Daniel Jonas, José Miguel Silva, Miguel-Manso…) e continuar a mostrar este branco dos dentes, mas satisfaço-me muito com o prémio a estas aparências que iludem e à força bruta das lacerações e das arestas bem limadas. E ainda por cima ela é do Porto! Pareço o amante, eu sei, mas é isso mesmo que este Dia Mundial da Poesia pede; amantes, não adeptos.

Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada.
Esse edifício junto à praia, deixai-o
entregue às ruínas,
às folhas do milho,
ao ar salgado.
Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.
Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.
Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.
Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.
E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.
Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.
Ainda são preciosos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.
(Tão bela como qualquer rapaz, de Andreia C. Faria, edição: Língua Morta, fevereiro de 2017, pp. 54-55.)

Mais geral e particular para o dia, Herberto Helder:

GetResource.jpeg

Toda a poesia é insolúvel: (…) Não lhe falta nem lhe sobra o mundo, nem é a contradição do mundo aquilo que a embaraça. (…) O silêncio não traduz apenas a renúncia, mas a ruptura entre o mundo como linguagem e a linguagem como mundo. O que se não exprime forçosamente pela ausência do dizer. Não será essa, mesmo, uma condição do dizer? 
(Herberto Helder, «Nota Inútil», prefácio a António José Forte, Uma Faca nos Dentes)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s