Música

“Avant-pop” para maiores de 18

Reflexão sobre a apropriação cultural, em exuberante caldo avant-pop, feito das melhores linhas de baixo da “antiguidade” e sem exalar qualquer odor a naftalina:

“The music never answered the question, ‘What should I do?’ In fact, it hasn’t provided any answers thus far. It does not answer the uncomfortable question about the role of art and artists in things such as dismantling racism, combating oppression, or halting climate change. I hope this album, which I am deeply proud of and consider our best, reaches people like our music hasn’t before. And I wonder, can it do so without erasing the work of others? I wonder if it can do so without reeking of the white supremacy and privilege that it intends to investigate. This album is what it is: a vessel for a cisgender, white woman in a heteronormative relationship to explore her place in the world. A vessel for exploring, out loud, the very concrete reasons why it’s this band, and not another, whose music you’re being offered by a record label. And I cherish this vessel” (Merrill Garbus/Tune-Yards)

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35 anos de eloquência

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Quem é que ouviu Ian McCulloch a cantar isto?

“Hey now David Bowie
Thanks for all you showed me
Like how to smoke a cigarette better than anyone
And how to wear my overcoat so cool that I could freeze the sun
The school of David Bowie
Was where I learnt to know me”?

Não tendo os 35 anos que hoje faz Porcupine, ou a sua rasgada veia eléctrica, achei interessante mostra-vos onde entendo que os Echo & the Bunnymen foram buscar tão longa eloquência.

Música

Mark E. Smith (1957 – 2018)

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(2017 )

The Guardian — How did you feel about the BBC reporting you were dead?

MARK E. SMITHObviously it was the BBC, the idiots. It was stopped in minutes by Fall fans. I was still ill around that time but was starting to feel better and somebody comes in and says, “by the way, you’re dead”.

Música

DISCOS, os melhores de 2017 — pouca coisa se faz actualmente com interesse que não passe pela influência do “novo” jazz

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Vi por aí, como melhor do ano, o último álbum dos LCD Soundsystem quando eles próprios já declaram o seu óbito . Vi que a maioria não se lembrou dos The Gift. Vi que passaram ao lado de uns maravilhosos (e todos “nossos”) GUME. Que não se aperceberam da existência de Scarecrow Paulo, nem que Vítor Rua está vivo. 2007 e os seus balanços foi um “baque” para mim. Indo, então, ao que interessa: muito pouca coisa se faz actualmente com interesse que não passe pela influência do “novo” jazz. É, por isso, muito feio não eleger como melhor disco do ano um pequenino até (EP): Kamasi Washington — Harmony Of Difference. A singular energia do universo jazzístico deste tipo, que eu já abracei, sim, sim, tem até uma exuberância cinematográfica sublinhada e a sublinhar em “Truth”. Procurem o vídeo-clip. Uma bela curta-metragem de 14 minutos!… Nos lugares seguintes da lista e na linha dessa influência jazzistisca espiritual, só podem vir os seguintes:

The Heliocentrics – A World Of Masks
Lord Echo – Harmonies
Ruby Rushton – Trudi’s Songbook, Volume Two
Arthur Verocai — “no canto do urubu”Binker & Moses – Journey To The Mountain Of Forever
Ahmad Jamal – Marseille
Tricky – Ununiform
Brian Eno — Reflection

Na área da pop, só destaco:
BjörkUtopia, um renascimento
Lana Del Rey— Lust For Life, sempre “amazing”.
Lorde — Melodrama, que imprevisibilidade!
St. Vicent — Masseduction, pela crueza e beleza.
E na área do rock, também são poucos:
Thurston Moore — Rock n’ Roll Consciousness, porque largou definitivamente o chá.
The Jesus and Mary Chain — Damage and Joy, porque sim, porque nunca consigo dizer que eles fazem alguma coisa má.
Mas a grande surpresa do ano foi a produção portuguesa. Poucos foram os álbuns que gostei, mas dos que gostei, até fizeram tremer o Kamasi! A ordem não é importante, mas tenho de destacar um pódio. O ex-Herói do Mar não anda a nanar em Inglaterra. Os Gume são a melhor prova da influência benigna do melhor jazz actual, aqui pontuado por um bem medido “psychedelic rap” em estilo “free groove” e em absoluto estado de graça quando entra em “spoken word”. E quanto ao Manuel Fúria e os Náufragos, prevejo que seja o esquecido do ano, pois ser conservador e católico, neste tempos, é uma enorme desvantagem — o objecto estético fica, assim, a modos que proscrito. Mas ainda me ides dizer quem é que admoesta hoje em dia uma mulher (ouçam “Cala-te e Dança”) – ainda que benignamente – e se permite manter um ar belo? Quem é que hoje em dia cruza nas canções o Minho, os Smiths e o Ruy Belo? Quem é que grafa assim um TU nos textos e vai à missa aos domingos?
Quem?
Quem?

 

Scarecrow Paulo (Paulo Pedro Gonçalves) – Shank
Gume – Pedra Papel
Manuel Fúria e os Náufragos — Viva Fúria
Orelha Negra – Orelha Negra III
Slow J – The Art Of Slowing Down
Moullinex –Hyperse
Abztrqt Sir Q – Yarnati Machine
Vítor Rua – Do Androids Dream Of Electric Guitars?
PZ – Império Automano
Beatbombers – Beatbombers
Ermo – Lo-fi Moda
The Gift – Altar
Aldina Duarte – Quando se Ama Loucamente

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France Gall (1947-2018)

Annie aime les sucettes
Les sucettes à l’anis
(…)
Coule dans la gorge d’Annie
Elle est au paradis

O cinismo é um desses conceitos que nos apanham o braço se lhes dermos um dedo. É de esperar que ele esteja à espreita quando o palavreado cessa. “Sucettes” deriva de “suck” e a vítima (France Gall) só o pôde descobrir a meio da digressão, lá no longíquo Japão, de onde nunca recuperou, conta a lenda. O senhor cínico pode demorar a tirar a máscara, mas sorri sempre para a sua débil adversária (coisa feia..). E, lá ao fundo, ouve-se alguém a sentenciar: “C´est la vie!”. Esta terminou hoje para a France Gall e isto não é grande obituário, eu sei.

ADENDA: Gainsbourg pode ter sido o primeiro a gozar com as “loiras”, mas há que reconhecer que até que lhe deu a oportunidade de saber que raio era as “Sucettes” que ela cantava com tanto afinco, pensando que eram chupas-chupas.

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Lentos, deslumbrantes

Talvez para lembrar a injustiça a todos quantos não estão a contar com os The Gift entre os melhores do ano, Niv Novak, fotógrafo e artista videográfico de Melbourne, que se tem dedicado ao registo de imagens de alta definição, em câmara hiper-lenta, de performances de bailarinos de The Australian Ballet. apresenta o último teledisco da banda. A lentidão das  imagens e (também) da música são deslumbrantes.

[e uma curiosidade, aos 3 minutos, na música mais importante da vida dos The Gift]