Livros

“Os males de Anto [António Nobre] toda a gente os sabe!/ Os meus … ninguém.”

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Foi a primeira a trazer o desejo para o poema, mas apesar de ser “alma sonhadora, irmã gémea da minha”, ignorou Pessoa, simbolistas, modernistas e mais istas, seguindo um caminho singular.

Só António Nobre a cativou pelo tom confessional e por toda aquela tristeza, solidão e saudade. Prova-se: começa Nobre, o seu , assim: “Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!/ Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,/ Mas, tende cautela, não vos faça mal…/ Que é o livro mais triste que há em Portugal!”; e reclama Florbela Espanca, no seu “Impossível”, assim: “Os males de Anto [António Nobre] toda a gente os sabe!/ Os meus … ninguém.”

A neurastenia levou-a neste dia, em que também se comemora o seu nascimento, mas é neste livro que vos deixo, talvez o mais esquecido da Agustina, e todos os livros da Agustina são livros esquecidos, que melhor se explique o que tanto a elevou.

“O neurótico, se é um introvertido, liga-se facilmente a uma conduta fictícia. Essa conduta fictícia é, para Florbela, a amorosa (…) conduta fictícia de noventa por cento dos degenerados sociais, uma caminhada para regiões arcádicas e infantis. O que tem de superior Florbela é esta súbita revelação de auto-regulação da sua conduta fictícia. Por efeito de uma inteligência muito viva, esquiva-se de repente à identificação de uma função, aqui, a função amorosa, e desembaraça-se do encargo dessa líbido que a impede de contemplar a totalidade de si mesma. “Nunca os meus braços lânguidos traçaram o voo dum gesto para os alcançar.” Neste momento, Florbela atinge uma dimensão verdadeiramente consentânea com o génio.”

(Florbela Espanca – A Vida e a Obra, de Agustina Bessa-Luís, edição: Arcádia, fevereiro de 1979, pp. 24/25).

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Não há um de que não goste, há um que gosto mais:

Ambiciosa

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar…

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar…
– Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? – Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada…
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…

(Florbela Espanca, in “Charneca em Flor”)

Livros

Ninguém escreve assim

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“Agustina já não vende”, foi a informação que a Babel deu, há poucos meses, a um jornalista da Sábado. Para a editora, os cerca de 1500 euros mensais eram incomportáveis e os livros teriam de ser “expulsos” do mercado. Como já não se consegue pôr à disposição do público a obra da Agustina, e nem a editora desistente duvida que ela ocupe um lugar central na literatura portuguesa contemporânea, António Guerreiro já pediu a declaração de Estado de Emergência nas nossas letras.

Enquanto não se declara esse justo estado e se regista um aumento angustiante da quantidade de livros publicados — “tralha” no caminho para os livros de Agustina — celebram-se hoje os 95 anos da escritora que António José Saraiva, na História da Literatura, colocou no mesmo espaço (da prosa) que Fernando Pessoa.

Mas não valerá a pena desanimar. A Relógio D´Água acaba de pegar na tarefa de pagar esses exorbitantes 1500 mensais à escritora e de nos reeditar a obra com excelentes prefácios (o de Gonçalo M. Tavares para A Sibila, é particularmente brilhante). Já nos deu o infantil Dentes de Rato e brevemente virá Vale Abraão prefaciado por António Lobo Antunes e mais 8 obras até ao final do ano: Fanny Owen, Ronda da Noite, As Fúrias, Os Meninos de Ouro, O Mosteiro, O Manto, As Pessoas Infelizes, Deuses de Barro, e entre os prefaciadores, Hélia Correia, António Mega Ferreira, Pedro Mexia e o poeta João Miguel Fernandes Jorge.

Tendo nascido em 1922 e tendo publicado o primeiro livro em 1948 (Mundo Fechado), Agustina Bessa-Luís é, nas melhores palavras de Gonçalo M- Tavares, “uma inteligência convicta e convincente, mas não fundamentalista”, que nos seus livros, sempre híbridos entre o romance e o ensaio, coloca “as suas personagens sempre a concluir”, e uma feminista que nunca aceitaria esse epíteto se isso significasse retirar à mulher a sua propensão para o mal (o que, certamente, também diria Tavares se alguém lho tivesse perguntado).

Do prefácio de A Sibila, porque talvez ninguém escreva assim: é preciso parar entre cada fase, levantar a cabeça da folha, escavar naquela frase até a decifrar: frases sábias tornam-se, então, frases-ilha. Isolam-se. O leitor fica com elas, volta atrás, constrói, no fundo, dezenas de outras frases — uma espécie de comentários fantasma. Uma frase que exige resposta, comentários, sublinhados.”

Videobiografia de 55 minutos. Agustina Bessa-Luís fala da sua infância, das suas memórias, do “exílio” no Douro, das aventuras da sua juventude, do início da longa carreira como escritora e do amadurecimento da sua experiência. João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira, Eduardo Prado Coelho, Inês Pedrosa, Pedro Mexia, Alberto Vaz da Silva, Laura Mónica Baldaque e Francisco Cunha Leão falam da sua relação com a escritora e contam episódios únicos.

Livros

Sentenças Frias

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“Deixai que vos convide a este festim em que não há sombra de desgostos e de competição. Amo a terra em que me torno mais dia a dia. Quem a amar comigo, que me acompanhe nesta leitura” 

(Alegria do Mundo).

Os dispersos de Agustina estão todos por ai, mas faltava organizá-los. Encontrámo-los, em particular, nos volumes Alegria do Mundo (I: Escritos dos anos 1965-69 e II: Escritos dos anos 1970-74), de 1996 e 1998, e em Contemplação Carinhosa da Angústia (2001). Mas este trabalho de recolha e a organização de quase três mil páginas de “uma crónica um pouco altiva para o gosto de muita gente, mas também com acessos de proximidade de quem vive o seu tempo” (Pedro Mexia), devemo-lo a Lourença Baldaque (neta da escritora).

Pairam nestas páginas, como ascendentes, Camilo e Dostoiévski, a vaidade da escritora pelas jóias e vestidos e uma grande hostilidade a limitações. A neo-romântica de consciência ávida, impressionada por uma realidade que a fascina, apresenta-se sempre com a memória de uma «verdadeira floresta tão povoada e imprevisível como a vida, onde nada é esquecido e tudo transfigurado, mundo grave e inesquecível» (Eduardo Lourenço).

Estruturados por fatias cronológicas — I: 1951-79, II: 1980-90 e III: 1991-2007, os três livros que receberam o título de Ensaios e Artigos (1951-2007) revelam uma muito atenta escritora ao presente, uma viajante frenética (curioso o índice toponímico apresentado no último volume), uma cinéfila, uma amante de exposições, uma leitora voraz de jornais estrangeiros, uma apreciadora de novelas (“Gabriela”, III, pp. 1874-76), mas também de clássicos gregos e latinos (“O tempo que se passa nos consultórios dava para abrir o estreito de Corinto e descobrir a passagem do Noroeste”, III, p. 2478).

Mas o que mais ressalta são as suas sentenças frias (“Sou por natureza uma pessoa amigável, como os cães de caça” (III, p. 1886); “O Douro é uma epopeia, o resto é uma nação bem ou mal sucedida” (III, p. 2160) e Eu canto mais depressa a perenidade da couve galega do que a duração duma presidência da República. Eu e todos os portugueses” (III, p. 2516).) que criavam no rosto de José Régio “um sorriso de incredulidade” (I, p. 542).

Ao extraordinário trabalho de Lourença Baldaque talvez só possa apontar-se a falta de informação dos textos eleitos para outros livros já publicados, uma recolha dos prefácios (seria tão bom!) e uma cronologia biográfica que permitisse perceber que livros Agustina Bessa-Luís foi escrevendo em paralelo com estas páginas. Contudo, e recordando novamente Eduardo Lourenço a propósito dos romances da autora: «De cada ponto da obra pode partir-se para todos os outros sem que haja um círculo de que cada um seja o centro»). Não se deve pedir, então, mais.