Livros

Névoa subtil no traço

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São Três Histórias Desenhadas em que a imagem e texto são como dois braços num corpo. O traço longilíneo elegante traz os pobres, os artistas de rua e as crianças como formato humano perfeito para a invenção de Almada e para mostrar o peso morto da sociedade (“E como acontece aos que não são felizes, começou a sonhar com o céu”, p.83).

Este precioso volume, agora publicado, desdobra-se pelas ficções «Era Uma Vez», «O Sonho de Pechalim» e «A Menina Serpente», que tiveram primeira publicação em 1926, nas páginas do Sempre Fixe, semanário humorístico. Todas contam histórias, assumindo um protagonismo maior do que o de meras ilustrações de apoio. “Era uma vez” inclui o texto completo, mas “O sonho de Pechalim” nem sequer tem palavras. Almada queria que fossem os leitores do jornal a escolhê-las, tendo até havido um concurso infantil para esse efeito. Já em “A menina serpente”, que não saiu na íntegra no periódico, o autor incluía uma linha a mais em cada desenho, “para que os leitores pudessem acrescentar o que entendessem”, como explica numa nota Mariana Pinto dos Santos, responsável com Sara Afonso Ferreira pela edição deste volume.

Mas é nos espaços intermédios que encontramos o melhor de Almada: a incerteza como princípio ativador. «E a seguir era o banho de sol; e sobre a areia os quatro pensavam que afinal o destino se passa sobretudo entre dois.» (p.39).