Música

The Gift já não soam a The Gift

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Os The Gift nunca me interessaram. Muito pelo excesso de exuberância que nunca compreendi, alguma coisa pelo dramatismo ilógico das suas interpretações sempre desapegado das canções. Mas é evidente que uma banda produzida por Brian Eno deve ser logo sinalizada com luz strobe. E se a isso juntarmos Flood, nas misturas, é natural que fique todo atenção.

Entendamo-nos: Brian Eno é um mago, mas só porque trabalha muito. Sabemos que tomou o pequeno-almoço com a banda portuguesa, fez-lhes marmelada caseira e mandou-os reescrever todas as canções que traziam. Até às versões finais o caminho foi o mais árduo que experimentaram até hoje, já o confessaram. E se entre a degustação da marmelada caseira de Eno este conseguiu baixar a exuberância excessiva dos The Gift, aliviou-os também da luta (que nunca perceberam errada) entre os instrumentos e a voz – não interessa quem chega primeiro, não interessa (sobretudo) a sobredose. A música que os The Gift faziam, faziam-na mais para cantar do que para ser ouvida. Agora, temos o contrário. Há menos excessos e uma aparente simplicidade (repito “aparente simplicidade”) a pensar no gozo de a ouvir. Ora, isso não é mudar pouco. Isso é nascer outra vez. Por alguma razão, Nuno Gonçalves, no apurado e depurado concerto do CCB, informou o público que Brian Eno sentenciou que os “The Gift já não soam a The Gift“.

O que está a acontecer nota-se bem em “Big Fish”, música sobre a pureza pop, mas sempre sobre uma linha de baixo simples que obriga a manter a rota e o fôlego até ao fim – é o ouvinte que inflama, não a canção. E em “Love Without Violins”, claramente a melhor porque tem a mão mais pesada de Eno e não deixa a Sónia acelerar em direção a nenhures. E também em “Malifest” (essencialmente nesta, a minha atual favorita), outra clara influência de Eno e das suas viagens ao Mali onde os acordes são o que menos importa.

É um poderoso álbum porque tem efetivamente a magia de Brian Eno  – e isso quer dizer “a arquitectura de sons e emoções” (não digam “pop”…) -, e a indicação de um novo caminho que não descaracteriza a banda, mas corrige-lhe severamente os excessos e erros de vinte anos. Agora, no Altar, os The Gift recebem a extrema-unção e o escândalo de um novo nascimento. Podem ser tudo.