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Hoje, seriam 93

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Está muito esquecido e duvido que seja fácil “fazer-lhe” novos leitores. Irão perder-se na vasta obra e desistir perante a falsa percepção de que o poeta escreve sempre o mesmo poema. A mim, e deixo-as aqui, ajudaram-me muito estas palavras do Eduardo Lourenço:

“A propósito de dois poetas franceses, que muito preza, Ramos Rosa emprega as duas expressões «a poesia como restituição do real» e «a poesia como afirmação do real». Entre estes dois pólos oscila a sua própria criação poética. O poema não é para António Ramos Rosa nem realidade paradisíaca, nem o seu análogo imagético ou alegórico, mas simples lugar de luta por uma unidade – uma unificação sobretu- do – jamais dada nem jamais alcançada e no entanto presente pelo palpável e fulgurante excesso que o contacto com o real estabelece em nós. Ou talvez, melhor ainda, pelo des-contacto, a falha, que só o poema premente busca aniquilar, refazendo às apalpadelas o milagre monstruoso de uma coincidência anterior a todas as palavras que podem falar dela».

(Eduardo Lourenço, «Poética e poesia de Ramos ou o excesso do real» in Tempo e Poesia, Lisboa, Gradiva, 2003, pp.187-188).

É por isso que um inesperado Ramos Rosa a ironizar com o modo como foi sendo lido é bom, muito bom:

Alguns dizem que eu escrevo de mais
como se tivesse escrito alguma coisa
Não, todas as minhas inscrições foram acenos
a algo que nunca atingi
e que era a única coisa que eu desejava dizer.

(António Ramos Rosa, Deambulações Oblíquas, 2001).