Poesia

O horror de morrer

IMG_3076.jpg

Nos seus últimos poemas — A Sombra do Mar (2016, Assírio & Alvim) — falou da consciência dorida da inevitabilidade do envelhecimento:

A idade abafou todo o prodígio,
palmo a palmo, vou medindo o esplendor em dissolução.
Palavra por palavra (p.14).

Foi um último encontro de Armando Silva Carvalho com o tempo final. Um notável exercício do direito de  contemplar o seu próprio fim. Só lá está o tempo, enquanto gerador de vida e encaminhador da morte, a sombra da doença e a ameaça da decrepitude.

A verdade é só uma, o que foste ontem
já não te conhece (p.12).

O poeta que se qualificou sempre de acidental e que conseguiu uma narrativa singular que passou quase incólume entre os holofotes da habitual desatenção nacional, começou por medir as distâncias poéticas entre a cidade e o campo e nos poemas escritos nos últimos anos da sua vida acabou aceitar que a poesia é uma “praia constantemente batida pelas ondas do mar” (metáfora feliz de Luís Miguel Queirós que tão bem traduz uma das linhas temáticas mais exploradas pelo cânone lírico nacional).

Mas aqui o mar não é tema, antes presença metafórica de uma face não-heróica (“água doméstica”, “a tolha de banho”, “chuva doméstica “…). Joana Matos Frias fala, por isso, num “valor não funcional da metáfora na lírica de Armando Silva Carvalho”, mais como uma operadora privilegiada de uma razão poética: ora interior — quando o “eu” faz introspecção sobre a vida, o envelhecimento, etc. — ora exterior, quando a sua “lírica consumista” atinge “o poder dos media” ou a “barbárie tecnológica”.

Por falta de recursos, classifiquei-o sempre de forma mais simplista: como um poeta da secura, da extrema dureza e da autoironia sem qualquer comiseração. Alguém que sempre quis incomodar os vivos com a sua poesia de resistência e de engajamento.

A Sombra do Mar recebeu os prémios da Sociedade Portuguesa de Autores, da Fundação Inês de Castro, da revista Cão Celeste, o Grande Prémio de Poesia António Feijó e o Grande Prémio Casino da Póvoa na edição de 2016 do Correntes d’Escritas. Estreou-se com Lírica Consumível (Prémio de Revelação da APE, 1965) e em 2007 viu publicado O Que Foi Passado a Limpo, obra que colige os doze livros de poesia que publicou entre 1965 e 2001. Como a Obra não parou nesse ano, uma reedição acrescentada dos livros posteriores seria bem-vinda.

Despediu-se de nós, esta semana, como o brilho de sempre nas palavras:

Se pudesse até de mim me afastava.
O que não deve faltar muito,
segundo as minhas contas (p. 60).