Poesia

Stephen Hawking (1942-2018)

1hawkingillo-master768-v2.jpgIssac Newton não era um homem agradável, mas Stephen Hawking compensou largamente essa fatalidade. Além disso, tinha uma justificação muito satisfatória para nunca se ter cruzado com um ser do futuro. Tinha, também, 76 anos. Foi matemático, físico e o cosmologista mais conhecido em todo o mundo, infelizmente pela pior razão: a esclerose lateral amiotrófica de que sofria desde 1963. A doença não o impediu de prosseguir investigações e escrever dezasseis livros (sendo quatro de literatura para crianças) e de participar no álbum The Division Bell (1994), dos Pink Floyd. Tinha o sonho de experimentar a gravidade zero e a empresa Zero Gravity Corp proporcionou-lhe, em 2007, oito mergulhos parabólicos efectuados num avião especial. Casou duas vezes e foi pai de três filhos. A primeira mulher, Jane Hawking, professora, manteve uma relação extra-conjugal consentida e escreveu dois livros sobre a sua vida com Hawking. A segunda, Elaine Mason, enfermeira, foi acusada de abuso sobre o marido, mas Hawking não apresentou queixa. Preferiu divorciar-se e voltar para Jane. Num misto de criança espantada e genial intelectual estudou muito para nos dizer isto, que ainda não compreendemos bem: este não seria um grande universo se não fosse a casa das pessoas que amamos.

“Encontramo-nos num mundo desconcertante. Queremos que o que nos rodeia faça sentido e perguntamos: Qual a natureza do universo? Qual é o nosso lugar universo e donde provieram todas as pessoas? Porque é o universo como é?” (Breve História do Tempo – Edição Comemorativa do 10º Aniversário, de Stephen Hawking, tradução: Maria Alice Gomes da Costa, edição: Gradiva, abril de 2000, p.209)

Mas há mais a dizer.
Armando Silva Carvalho, sempre essencial (et parce que les beaux esprits se rencontrent), escreveu isto:

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?
100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar meta-estável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.
Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.
Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham de deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez o único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.
É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.
Abençoado profeta, só eu não sei por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história,
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor do universo.

(A Sombra do Mar, 2015)

Poesia

O horror de morrer

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Nos seus últimos poemas — A Sombra do Mar (2016, Assírio & Alvim) — falou da consciência dorida da inevitabilidade do envelhecimento:

A idade abafou todo o prodígio,
palmo a palmo, vou medindo o esplendor em dissolução.
Palavra por palavra (p.14).

Foi um último encontro de Armando Silva Carvalho com o tempo final. Um notável exercício do direito de  contemplar o seu próprio fim. Só lá está o tempo, enquanto gerador de vida e encaminhador da morte, a sombra da doença e a ameaça da decrepitude.

A verdade é só uma, o que foste ontem
já não te conhece (p.12).

O poeta que se qualificou sempre de acidental e que conseguiu uma narrativa singular que passou quase incólume entre os holofotes da habitual desatenção nacional, começou por medir as distâncias poéticas entre a cidade e o campo e nos poemas escritos nos últimos anos da sua vida acabou aceitar que a poesia é uma “praia constantemente batida pelas ondas do mar” (metáfora feliz de Luís Miguel Queirós que tão bem traduz uma das linhas temáticas mais exploradas pelo cânone lírico nacional).

Mas aqui o mar não é tema, antes presença metafórica de uma face não-heróica (“água doméstica”, “a tolha de banho”, “chuva doméstica “…). Joana Matos Frias fala, por isso, num “valor não funcional da metáfora na lírica de Armando Silva Carvalho”, mais como uma operadora privilegiada de uma razão poética: ora interior — quando o “eu” faz introspecção sobre a vida, o envelhecimento, etc. — ora exterior, quando a sua “lírica consumista” atinge “o poder dos media” ou a “barbárie tecnológica”.

Por falta de recursos, classifiquei-o sempre de forma mais simplista: como um poeta da secura, da extrema dureza e da autoironia sem qualquer comiseração. Alguém que sempre quis incomodar os vivos com a sua poesia de resistência e de engajamento.

A Sombra do Mar recebeu os prémios da Sociedade Portuguesa de Autores, da Fundação Inês de Castro, da revista Cão Celeste, o Grande Prémio de Poesia António Feijó e o Grande Prémio Casino da Póvoa na edição de 2016 do Correntes d’Escritas. Estreou-se com Lírica Consumível (Prémio de Revelação da APE, 1965) e em 2007 viu publicado O Que Foi Passado a Limpo, obra que colige os doze livros de poesia que publicou entre 1965 e 2001. Como a Obra não parou nesse ano, uma reedição acrescentada dos livros posteriores seria bem-vinda.

Despediu-se de nós, esta semana, como o brilho de sempre nas palavras:

Se pudesse até de mim me afastava.
O que não deve faltar muito,
segundo as minhas contas (p. 60).