Livros

Praça da Revolução, Prisão*

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É muito natural que a Revolução “Vermelha” de Outubro de 1917 faça muita confusão. Desde logo porque só se deu em Novembro pelo calendário que já não é o nosso e graças ao Império Alemão que doou a 40 milhões de goldmarks a Lenine.

A festa foi bonita, mas a “primavera literária” curta. Os bons escritores, mas maus revolucionários, foram sendo silenciados e a partir de 1928, com Estaline, habitualmente “despachados” com uma bala (isto só para poupar) na nuca.

O emblemático caso Boris Pilniak, presidente da União dos Escritores marcou indelevelmente uma época em que a inabilidade na escolha do protetor ou um descuido na história contada tornava-se um fatal problema. Uma conversa com alguém não muito querido do regime não oferecia nenhuma vantagem. Issac Babel foi finalmente despachado, em 1940, depois de conversar com André Malraux e insistir regressar à URSS. A acusação de espionagem e simpatizante trotskista serviu de sentença bastante.

Escritores como “engenheiros de almas” e com quotas de trabalho obrigatórias no plano quinquenal. Tudo por um realismo socialista literário onde apenas podia haver o bom e o melhor. O escritor, o artista, torna-se um funcionário do povo e assim se celebravam as ideias do romance de Gorki em A Mãe (1907). A impotência criativa terminava acabando-se com os devaneios sonhadores especulativos, oferecendo-se à liberdade criativa apenas o que ela precisa de corretamente interpretar : a sociedade.

Tudo isto chegou cá com o nome de neo-realismo e recebeu um tiro na nuca, em 1949, por Vergílio Ferreira, no romance Mudança. Se nunca se falou abertamente da proximidade política com o “realismo socialista” soviético, a arte doutrinária do  neo-realismo português foi colocada em causa, não só pelo aborrecimento do tema recorrente, mas, fundamentalmente, por uma ideologia que subjugava a liberdade criativa. Depois, veio o Gulag, de Aleksandr Soljenítsin, que ainda não entra em muitas livrarias e não existe para muita gente. E, finalmente, o arrumar de ideias com Carlos de Oliveira no extraordinário Finisterra (1978).

No subtítulo do romance-testamento de Carlos de Oliveira, “Paisagem e Povoamento” está descrito um processo dialético em que a paisagem é mais uma “descrição”. Creio que é para não reduzir a obra ao que nela é narrativa. Há uma necessidade de (auto) reflexão e o que “povoamento” cumpre a “paisagem” impede. Finisterra retrata o fim de uma história que, afinal, não termina. É, aliás, assim que Gusmão, ensaísta marxista, responde à ideia de que Oliveira se afastou do marxismo. Finisterra revela um entendimento geológico, ou seja, materialista do universo. E, por isso, está aberto a migrações, alterações, refluxos. Como diz Gusmão: Oliveira pode ter desistido do carácter teleológico do materialismo histórico, mas ainda acreditava numa dialética da natureza. A que vai transformar tudo no fim.

Se quiserem o resumo do post, pode ser: até com uma ditadura que depõe outra ditadura é preciso manter esta ideia de mudança, sem a qual ainda estaríamos nas cavernas ou nas pirâmides. Só não mexam mal na História e nos Livros. 

*Percurso de um dos transportes públicos, na era de Estaline, ao serviço do povo.