Livros

Sentenças Frias

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“Deixai que vos convide a este festim em que não há sombra de desgostos e de competição. Amo a terra em que me torno mais dia a dia. Quem a amar comigo, que me acompanhe nesta leitura” 

(Alegria do Mundo).

Os dispersos de Agustina estão todos por ai, mas faltava organizá-los. Encontrámo-los, em particular, nos volumes Alegria do Mundo (I: Escritos dos anos 1965-69 e II: Escritos dos anos 1970-74), de 1996 e 1998, e em Contemplação Carinhosa da Angústia (2001). Mas este trabalho de recolha e a organização de quase três mil páginas de “uma crónica um pouco altiva para o gosto de muita gente, mas também com acessos de proximidade de quem vive o seu tempo” (Pedro Mexia), devemo-lo a Lourença Baldaque (neta da escritora).

Pairam nestas páginas, como ascendentes, Camilo e Dostoiévski, a vaidade da escritora pelas jóias e vestidos e uma grande hostilidade a limitações. A neo-romântica de consciência ávida, impressionada por uma realidade que a fascina, apresenta-se sempre com a memória de uma «verdadeira floresta tão povoada e imprevisível como a vida, onde nada é esquecido e tudo transfigurado, mundo grave e inesquecível» (Eduardo Lourenço).

Estruturados por fatias cronológicas — I: 1951-79, II: 1980-90 e III: 1991-2007, os três livros que receberam o título de Ensaios e Artigos (1951-2007) revelam uma muito atenta escritora ao presente, uma viajante frenética (curioso o índice toponímico apresentado no último volume), uma cinéfila, uma amante de exposições, uma leitora voraz de jornais estrangeiros, uma apreciadora de novelas (“Gabriela”, III, pp. 1874-76), mas também de clássicos gregos e latinos (“O tempo que se passa nos consultórios dava para abrir o estreito de Corinto e descobrir a passagem do Noroeste”, III, p. 2478).

Mas o que mais ressalta são as suas sentenças frias (“Sou por natureza uma pessoa amigável, como os cães de caça” (III, p. 1886); “O Douro é uma epopeia, o resto é uma nação bem ou mal sucedida” (III, p. 2160) e Eu canto mais depressa a perenidade da couve galega do que a duração duma presidência da República. Eu e todos os portugueses” (III, p. 2516).) que criavam no rosto de José Régio “um sorriso de incredulidade” (I, p. 542).

Ao extraordinário trabalho de Lourença Baldaque talvez só possa apontar-se a falta de informação dos textos eleitos para outros livros já publicados, uma recolha dos prefácios (seria tão bom!) e uma cronologia biográfica que permitisse perceber que livros Agustina Bessa-Luís foi escrevendo em paralelo com estas páginas. Contudo, e recordando novamente Eduardo Lourenço a propósito dos romances da autora: «De cada ponto da obra pode partir-se para todos os outros sem que haja um círculo de que cada um seja o centro»). Não se deve pedir, então, mais.