Livros

172 ANOS

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É claro que sou mil vezes, ou mais, devedor do trágico e do patético do Camilo, do que da ironia do Eça — não sei se perceberam, utilizada para nos manter a uma “boa” e “sensata” distância. Mas é um facto que o tipo é o melhor nessa coisa do romance introduzido pela expressão “vejam!”; cada cena escrita, uma magnífica frame (que só o João Botelho consegue estragar). Só não sei como filmaria a última cena d “Os Maias”. Aquela do “Ainda o apanhamos…” É para nos colocar na posição mais esperançosa do mundo ou estamos perante uma acusação de cinismo comportamental português que, afinal, tragédias familiares e outros problemas, tudo reduz a cinzas? Porque deixou o livro aberto? (Como é que eu não hei-de embirrar, sistematicamente, com o homem?)]

Espera! – exclamou Ega – Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
— Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
— Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma…
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
— Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…
A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
— Ainda o apanhamos!
— Ainda o apanhamos!

(Eça de Queirós, Os Maias, edição: Círculo dos Leitores, agosto de 1981, p. 675)

Livros

“O Romance d´Elvira” (que não o foi)

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A neta, há muitos anos, antes do 25 de Abril, mandou encadernar várias obras do avô (Eça de Queirós), numa oficina perto da Maternidade Alfredo da Costa, mas perdeu-lhes o destino. Quis este que um manuscrito, que provavelmente se encontraria dentro de um desses livros, fosse parar às mãos do nosso especialista queirosiano, A. Campos Matos.

É este atabalhoado esquema (acima), que nunca passou disso, do tamanho de uma página de 12,5 x20 cm, escrito em ambos os lados, que A. Campos Matos nos fala esta semana, no JL, e diz ser, ou melhor, que poderia ter sido, um romance paródia ao ultrarromantismo.

A. Campos Matos descobre Elvira como personagem principal, a mesma a quem, na primeira página de Correspondência de Fradique Mendes, Eça faz referência aos “rumores das saias (de Elvira)” como o tema único das obras do ultrarromantismo (uma obsessão para o escritor) e não esquece que é aquela que mereceu uma obra de Tomás de Alencar… o ultrarromântico n´ Os Maias. 

Escrito no ano d´A Relíquia (1885), A. Campos Matos transcreve-nos do esquema as partes não rasuradas, desafiando-nos para fazermos o mesmo (haja quem possa) com as rasurada:

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