Poesia

Parabéns, não tiveste sorte com o marido, mas foste compensada postumamente com um excelente editor

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Desde muito cedo, ainda estava eu longe do meu actual nível de “Ignorante de 1ª” em poesia, causou-me séria e chata impressão a “poesia na/da tranquilidade”. Não só com ela mas muito com ela e imagino, especialmente, em dias frios, descobri que, afinal, “a perfeição é terrível, não pode ter filhos”. E foi assim que a “poesia na/da INtranquilidade” me deu a felicidade suprema, só interrompida quando vi no cinema uma Gwyneth Paltrow a fazer de Sylvia, sempre loura e sempre sonsa. Ainda hoje não recuperei.

Colosso

Nunca conseguirei juntar-te todo,
compor-te, colar-te e unir-te devidamente.
Zurros de machos, grunhidos de porco e cacarejos
[obscenos
saem dos teus lábios.
É bem pior que num curral.

Talvez te consideres um oráculo,
porta-voz dos mortos, ou de um outro deus.
Há trinta anos que trabalho
para dragar o lodo da tua garganta.
Pouco mais sei!

Trepando pequenas escadas com frascos de cola e baldes
[de lisol
rastejo como uma formiga de luto
sobre as terras cobertas de erva da tua fonte
para reparar as imensas placas do teu crânio e limpar
os túmulos brancos, vazios dos teus olhos.

Um céu azul saído da Oresteia
arqueia-se sobre nós. Ó pai, tu só
és vigoroso e histórico como o Forum Romano.
Abro a minha merenda numa colina de ciprestes negros.
Os teus ossos estriados e os teus cabelos como o acanto
[estão espalhados

na sua velha anarquia até à linha do horizonte.
Seria preciso mais que o golpe de um relâmpago
para criar tal ruína.
De noite escondo-me na cornucópia
do teu ouvido esquerdo, abrigada do vento,

contando as estrelas, rubras ou cor-de-ameixa.
O sol ergue-se sob o pilar da tua língua,
as minhas horas casam-se com a sombra.
Já não escuto o raspar de uma quilha
nas brancas pedras do desembocadouro.

Sylvia Plath (Boston, 27 de outubro de 1932 — Londres, 11 de fevereiro de 1963)
Pela Água
tradução de Maria de Lurdes Guimarães
Assírio & Alvim
1990

Livros

Hoje, seriam 93

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Está muito esquecido e duvido que seja fácil “fazer-lhe” novos leitores. Irão perder-se na vasta obra e desistir perante a falsa percepção de que o poeta escreve sempre o mesmo poema. A mim, e deixo-as aqui, ajudaram-me muito estas palavras do Eduardo Lourenço:

“A propósito de dois poetas franceses, que muito preza, Ramos Rosa emprega as duas expressões «a poesia como restituição do real» e «a poesia como afirmação do real». Entre estes dois pólos oscila a sua própria criação poética. O poema não é para António Ramos Rosa nem realidade paradisíaca, nem o seu análogo imagético ou alegórico, mas simples lugar de luta por uma unidade – uma unificação sobretu- do – jamais dada nem jamais alcançada e no entanto presente pelo palpável e fulgurante excesso que o contacto com o real estabelece em nós. Ou talvez, melhor ainda, pelo des-contacto, a falha, que só o poema premente busca aniquilar, refazendo às apalpadelas o milagre monstruoso de uma coincidência anterior a todas as palavras que podem falar dela».

(Eduardo Lourenço, «Poética e poesia de Ramos ou o excesso do real» in Tempo e Poesia, Lisboa, Gradiva, 2003, pp.187-188).

É por isso que um inesperado Ramos Rosa a ironizar com o modo como foi sendo lido é bom, muito bom:

Alguns dizem que eu escrevo de mais
como se tivesse escrito alguma coisa
Não, todas as minhas inscrições foram acenos
a algo que nunca atingi
e que era a única coisa que eu desejava dizer.

(António Ramos Rosa, Deambulações Oblíquas, 2001).

Livros

Ninguém escreve assim

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“Agustina já não vende”, foi a informação que a Babel deu, há poucos meses, a um jornalista da Sábado. Para a editora, os cerca de 1500 euros mensais eram incomportáveis e os livros teriam de ser “expulsos” do mercado. Como já não se consegue pôr à disposição do público a obra da Agustina, e nem a editora desistente duvida que ela ocupe um lugar central na literatura portuguesa contemporânea, António Guerreiro já pediu a declaração de Estado de Emergência nas nossas letras.

Enquanto não se declara esse justo estado e se regista um aumento angustiante da quantidade de livros publicados — “tralha” no caminho para os livros de Agustina — celebram-se hoje os 95 anos da escritora que António José Saraiva, na História da Literatura, colocou no mesmo espaço (da prosa) que Fernando Pessoa.

Mas não valerá a pena desanimar. A Relógio D´Água acaba de pegar na tarefa de pagar esses exorbitantes 1500 mensais à escritora e de nos reeditar a obra com excelentes prefácios (o de Gonçalo M. Tavares para A Sibila, é particularmente brilhante). Já nos deu o infantilDentes de Rato e brevemente virá Vale Abraão prefaciado por António Lobo Antunes e mais 8 obras até ao final do ano: Fanny Owen, Ronda da Noite, As Fúrias, Os Meninos de Ouro, O Mosteiro, O Manto, As Pessoas Infelizes, Deuses de Barro, e entre os prefaciadores, Hélia Correia, António Mega Ferreira, Pedro Mexia e o poeta João Miguel Fernandes Jorge.

Tendo nascido em 1922 e tendo publicado o primeiro livro em 1948 (Mundo Fechado), Agustina Bessa-Luís é, nas melhores palavras de Gonçalo M- Tavares, “uma inteligência convicta e convincente, mas não fundamentalista”, que nos seus livros, sempre híbridos entre o romance e o ensaio, coloca “as suas personagens sempre a concluir”, e uma feminista que nunca aceitaria esse epíteto se isso significasse retirar à mulher a sua propensão para o mal (o que, certamente, também diria Tavares se alguém lhe tivesse perguntado).

Deixa-nos um universo feminino sem benevolência e sem ingenuidade, a importância da recordação (o passado determina o presente e futuro) e um discurso repetitivo que sempre acrescenta um ponto novo (e, por isso, existe Metamorfoses).

Mas ler Agustina não é para todos. Exige uma entrega total e como diz Tavares, no prefácio de A Sibila, é preciso parar entre cada fase, levantar a cabeça da folha, escavar naquela frase até a decifrar: frases sábias tornam-se, então, frases-ilha. Isolam-se. O leitor fica com elas, volta atrás, constrói, no fundo, dezenas de outras frases — uma espécie de comentários fantasma. Uma frase que exige resposta, comentários, sublinhados.” 

A menina para quem “ganhar o prémio Nobel não seria tão bom como comprar um vestido novo”, a “insolente” que ameaçou atirar pedras aos vidros das janelas da casa de Miguel Torga por este não lhe devolveu qualquer palavra sobre o seu primeiro romance que lhe enviou, a “ingrata” que em 2006, depois de um derrame cerebral, retirou-se definitivamente para um mundo só seu, merece hoje, pelo menos, um bonito lugar comum: ninguém escreve assim. 

Videobiografia de 55 minutos. Agustina Bessa-Luís fala da sua infância, das suas memórias, do “exílio” no Douro, das aventuras da sua juventude, do início da longa carreira como escritora e do amadurecimento da sua experiência. João Bénard da Costa, Manoel de Oliveira, Eduardo Prado Coelho, Inês Pedrosa, Pedro Mexia, Alberto Vaz da Silva, Laura Mónica Baldaque e Francisco Cunha Leão falam da sua relação com a escritora e contam episódios únicos.

Escultura

Sensibilidade impregnada nos rostos e volumes

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António Manuel Soares dos Reis nasceu em Mafamude, Vila Nova de Gaia, a 14 de outubro de 1847 e foi um dos principais rostos das belas artes portuguesas. As suas obras ganharam uma aparência de vida quase incomparável, tal a sensibilidade impregnada nos rostos e volumes desenvolvidos. Mas foi em Roma, no ano de 1872, que a conceituada obra de António Soares dos Reis,  O desterrado, foi conceptualizada e erigida. Composta por mármore de carrara, um material pitoresco de regiões altas italianas, foi a resposta para uma prova que teve em Itália e teve imediata repercussão. A obra vem destacar aquilo que são as diretrizes que norteiam a criação artística do escultor: o detalhe dos membros, a sua capacidade de exprimir estados de espírito, o jogo com as tonalidades da luz e da sombra e a corrente realista efetivada. 

Foi no seu atelier, situado na cidade que o viu nascer , mas que sentia que não o compreendia, que decidiu terminar com a sua vida. Numa das paredes, deixou escrito: “Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal”. Tinha 42 anos e deixava um invejável repertório artístico. Cobriu toda a extensão humana no seu discurso escultórico.

Em sua memória, no Porto, no ano de 1911, o Museu Portuense foi renomeado Museu Nacional Soares dos Reis, e trinta e sete anos depois, em 1948, foi uma escola industrial no Porto que tomou os desígnios de Escola de Artes Decorativas de Soares dos Reis, ajustada para Escola Artística de Soares dos Reis após a Revolução dos Cravos.

Música

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Não foi o primeiro, mas o segundo álbum em stereo do Beatles. E se vos refiro isto é para que saibam que, sim, eles até foram os primeiros a encarar os estúdios como uma ferramenta de escultura sonora adicional, mas com Revolver (mono) ele gastaram horas nas mistura e com Abbey Road (stereo) elas começaram e eles já estava de férias. Acho acho que ainda não meditamos o suficiente sobre isso.

Música

Neste dia, e desde 1926, de parabéns

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Era o exacto tipo de génio musical cujas semibreves, mínimas, semínimas, colcheias, fusas e semifusas, de que eu nada percebo, só raramente ou por acidente, onde quer que fossem captadas, não transportavam quem o escutava para um universo paralelo. Além disso, com tantas capas maravilhosas no jazz, sem que eu consiga oferecer provas intelectivas para este BELO, a de Love Supreme é a que o meu cérebro me diz ser a mais bonita. Creio que estou a concordar com o Kant, o que até pela saúde da minha embirração com o Platão tenho que agradecer ao John “Saint” Coltrane.

John-Coltrane

Música

Existência

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🖤 21.09.2016.

Em “Darkness” (LP “Old Ideas”, 2012), antecipou tudo:

“I caught the darkness drinking from your cup, I said is this contagious? you said just drink it up, I got no future, I know my days are few, the present’s not that pleasant just a lot of things to do. I thought the past would last me but the darkness got that too”.

E quando notou que não entendemos aquilo muito bem, carregou no traço e reescreveu tudo em “You Want It Darker”, que aproveitou para título da última obra e dizer “adeus” — um repouso morto de eterna ressurreição.

Música

A normalidade não chegava

Há 31 anos as coisas estavam assim: o punk tinha acabado de “varrer” o Reino Unido, presumivelmente morto o rock, e a pop assumia a necessidade de se apresentar em formas e sonoridades muito diferentes. 

Ofereciam-nos a new wave e as suas mutações (desde os Talking Heads à Nena), o synth pop (em particular, dos Orchestral Manoeuvres in The Dark), os estrondosos neoromânticos (Spandau Ballet e Duran Duran) e os neoclássicos Prefab Sprout. Todos com perspetivas válidas à entrada dos anos 80, mas os Smiths trariam outra proposta para a pop quando lançaram o single que inaugurou a sua discografia, “Hand in Glove”, em maio de 1983, falando do que ela nunca falou e renovando-a como tão pouco ela esperaria. Três anos depois, e no dia de hoje, declaravam que a normalidade não chegava com “The Queen Is Dead”.

A ultrapassagem de “Born in The USA”, de Bruce Springsteen, e de “Brothers in Arms”, dos Dire Straits, foi feita com estrondo e com atropelamento violento seguido de fuga à caridade da era Thatcher, o Live Aid. Lembram-se como Morrissey, na altura, ironizava? “Pode-se manifestar preocupação pelas pessoas da Etiópia, mas submeter as pessoas de Inglaterra a uma tortura diária é algo de completamente diferente”…

Com Jonhnny Marr a começar a pensar que a sua guitarra não precisa da mente do vocalista dos Smiths – nunca percebeu o que aconteceu à versão que entregou a Morrissey de “Some Girls Are Bigger Than Others”… – este álbum deu para tudo, para espantar e para zangar. Até o próprio Geoff Travis, o homem forte da editora que os Smiths haveriam de mandar às urtigas, a Rough Trade, serviu de inspiração de “Frankly, Mr Shankly”, tema meticulosamente metido entre o tema título  do álbum que hoje celebramos e… “I Know It’s Over”.

31 anos depois The Queen os Dead é, ainda, o mais válido discurso sobre o estado da nação da Rainha, sucedendo a God Save the Queen, dos Sex Pistols. Ambos críticas explícitas da monarquia, elegias de um determinado “status quo” e pilar de uma ideia de música independente, dura e de raiva sempre à procura da nossa resposta: ainda os ouvimos?