Livros

Os grandes escritores já não escrevem cartas de três páginas

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São conversas de amizade profundas e afinidades eletivas fascinantes, nesta Correspondência de 1949-1978, de Jorge de Sena e Eugénio de Andrade. É possível encontrar aqui um convívio que coincidiu nos gostos (Kaváfis tem mais de 50 entradas, e nos discos, Bach e Beethoven, em particular), mas também são cartas de grande inquietação, em especial as de Sena – talvez por estar fora, talvez por ter uma família muito grande. Vamos vendo como as coisas eram e funcionavam, pagamentos, direito de autor, traduções, etc., porém, sem nunca nos afastarmos dos poetas, dando-se, ao invés, um cimento para os percebermos melhor.

Edição de grande dimensão e de grande fôlego (mais de 600 páginas de cartas e postais), esta correspondência de três décadas de dois dos nossos maiores poetas, não pode oferecer todos os méritos à extraordinária Guerra e Paz. Esta edição tem a mão de um grande editor do Porto, José da Cruz Santos, hoje da Modo de Ler, o qual conviveu com Jorge de Sena e Eugénio de Andrade tendo sido, além de editor, um amigo de ambos. A organização ainda é de Mécia de Sena, que hoje já não tem condições de prosseguir com a edição do espólio do marido, tendo já a apresentação da filha, Isabel de Sena.

Mas se há alguma coisa que nestas centenas de páginas ressalta é a convicção absoluta de ambos de que as suas obras têm de estar nos lugares mais altos da literatura, em particular Sena, enquanto Eugénio insiste sempre que não é a fama das multidões que se deve procurar. Interessante também registar, nestas mais de 600 páginas de cartas e postais de grande admiração e respeito, que foram precisos vinte anos para que os poetas se tratassem por tu. E que Sena se exibe com mais liberdade (típica de quem está fora) e Eugénio com mais serenidade e prudência.

Outra dimensão interessante da obra é a social e política. A Correspondência de 1949-1978 oferece-nos um excelente retrato das condições antes da ditadura (procurando ambos, tanto quanto possível, a abertura) e das condições depois do 25 de Abril, onde Sena se revela mais marxiano do que marxista, o que era partilhado, em parte, por Eugénio de Andrade.

As cartas valem por outros aspetos, claro. E esta conversa de décadas faz-nos pensar que aqui há literatura e consequentemente perguntar se, hoje, o tecnológico fundindo o tempo e o espaço de forma tão imediata, haverá espaço para a mesma literatura através dos e-mails. É que se a resposta for negativa será uma pena e todos deixaremos de encontrar similitudes com os nossos “ídolos”. Por exemplo, por e-mail nunca eu teria encontrado a minha com Sena, a ruína:

“Também eu me vou arruinando em discos que, como os livros que sempre vou comprando, até excedem a minha capacidade temporal de ouvi-los. Mas não fora a música, e às vezes um filme ou uma peça de teatro, e seria difícil respirar.”

(Carta de Sena a Eugénio de Andrade, Madison, 4 de Maio de 1969).