Livros

Desde 1640 em dúvida (“Fiz tudo, nada vale a pena”?)

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Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido… Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.
Trabalhemos ao menos — nós, os novos — por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulizemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.

(Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas sobre Portugal, edição: Assírio & Alvim, abril de 2016, p. 16)

Cinema · Livros

Só para fechar o dia dos Sem Revolução…

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Já em mil novecentos e vinte e pouco os comunistas russos estavam a ver que aquilo só servia mesmo para oprimir o proletariado ignorante e para fazer filmes para exportar para Marte. Foi preciso chegar a 1979 para o Tarkovsky fazer o meu filme (talvez) favorito, “Stalker”, e explicar com a experiência da cor ao sépia e ao cinzento e com música metálica de fundo, que se a natureza não explica nada mas faz parte de tudo, se o segredo é sempre saber qual é o segredo, se a esperança e a desesperança são duas formas de espera, uma estarrecedora hidroelétrica abandonada é, de certeza, a metáfora soviética para o Gulag.

Contudo, não esqueçamos o nosso “maior” Fernando, que não precisou esperar tanto, e já em 1922 escrevia profeticamente assim:

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E V. verá o que sai da Revolução Russa… Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realização da sociedade livre.

(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, edição: Antígona, janeiro de 1997, p. 22)

Livros

Entre o deve e o haver um zero

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101 anos depois do seu suicídio em Paris, aos 25 anos, Mário de Sá-Carneiro ainda não se libertou da sombra de Fernando Pessoa, mas é bem possível que caminhemos, cada vez mais depressa, para a conclusão que nada lhe deverá.

A pista para melhores reflexões passa por um muito meritório documentário O Estranho Caso do Mário de Sá-Carneiro, com realização de Paulo Seabra e argumento de José Mendes, cujo link deixo aqui, ainda sem edição em DVD (que eu saiba). De Eduardo Lourenço a Fernando Cabral Martins, passando por Richard Zenith a Jerónimo Pizarro todos concluem que Pessoa (“o arquiteto”) estimulou Sá-Carneiro (“a força”) a tornar-se poeta, mas também que este, do alto da “sua” Paris, é que convenceu o amigo para avançar para a vanguarda, emocionando-o para o desdobramento heteronímico que se seguiu.

Que depois de Pessoa ser convencido a aderir à vanguarda vai numa velocidade incrível e que Sá-Carneiro não o pôde acompanhar, é outra história. Sobra a correspondência deste (a de Pessoa só Pedro Eiras a conhece, publicada neste magnífico livro, aliás) para provar a lucidez e o saber para o reconhecer e não ser esmagado. A “Ode Triunfal” parece ter marcado o fim do caminho partilhado pelo dois – carta a Pessoa de 13 de Julho de 1914: “(…) sinto que nunca poderia ter escrito a ode do Álvaro de Campos porque em todo o caso não amo tudo que ele canta suficientemente para assim o fixar…Sinto menos do que ele, amo menos do que ele, estrebucho menos do que ele as avenidas da ópera, os automóveis, os derbies, as cocottes, os grandes boulevards… E eu amo isso tudo portanto de tal ânsia (…)”.

Para o dia de hoje, para a efeméride, é esta carta, também, muito clara: “(…) qual será o meu fim real? Não sei. Mas, mais do que nunca acredito, o suicídio…”. A 26 de Abril do ano seguinte, ingere cinco frascos de arseniato de estricnina num quarto do Hotel de Nice, junto à Place Pigalle. Não escapou a si próprio, mas anda sempre ai.