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Que mal tem alguém reduzir a utilidade da filosofia?

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Não será em pleno 393° aniversário que me vão ouvir falar mal do Voltaire. Quero lá saber se erra quando explica que as suas certezas implicam uma crença na infalibilidade dos sentidos? Que mal tem alguém reduzir a utilidade da filosofia? E que mal vem ao mundo por se reduzir os inimigos a caricaturas e depois gozar com a fealdade da criatura? O ouro aqui é a prosa, a vil sátira e o extraordinário humor sobre um mundo em ruínas — livro de extraordinária actualidade, até.

Meus amigos, disse; aqui somos todos padres; o Rei e todos os Chefes de família cantam cânticos de ação de graças, solenemente, todas as manhãs, e cinco ou seis mil Músicos os acompanham.
— Como!? [exclamou Cândido]. Não tendes frades que ensinem, que zaragateiem, que governem, que conspirem e que queimem gente que não seja da opinião deles?
— Só se fôssemos doidos, disse o Velho; aqui temos todos a mesma opinião, e nem vejo onde quereis chegar com essa conversa dos frades.

(François-Marie Arouet de Voltaire, Cândido ou o Optimismo, trad: Rui Tavares; ilust: Vera Tavares, edição: Tinta da China, abril de 2006 [1766], p. 91)