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Não havia de ser só dinheiro, o que nos pedem nas bilheteiras de cinema e posso provar

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Como era muito amigo do Foucault e este estava sempre a dizer “Um pouco de possível, senão sufoco”, assim que achou que já não era, há 22 anos, atirou-se da janela. Expor o pensamento através dos conceitos de imagem-movimento e imagem-tempo foi uma contribuição tão grande que eu acharia bem obrigar-vos a recitar este pequeno texto antes de receberdes os bilhetinhos da sessão. Fica a ideia, não querendo exagerar.

Os grandes autores de cinema são como os grandes pintores ou os grandes músicos: ninguém fala melhor do que eles do que fazem. Mas, ao falarem, tornam-se outra coisa, tornam-se filósofos ou teóricos, até mesmo Hawks que não queria saber de teorias, até mesmo Godard quando finge desprezá-las. Os conceitos do cinema não estão dados no cinema. E no entanto são os conceitos do cinema, não teorias sobre o cinema. Pelo que há sempre uma hora, mais cedo ou mais tarde, em que já não se trata de perguntar «o que é o cinema?» mas «o que é a filosofia?». O cinema em si é uma nova prática das imagens e dos signos da qual a filosofia tem de fazer a teoria como prática conceptual. Porque nenhuma determinação técnica, seja aplicada (psicanálise, linguística) ou reflexiva, é suficiente para constituir os conceitos do próprio cinema.

(Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo, Cinema 2, edição: Assírio & Alvim, abril de 2006, p. 357)