Livros

Ele quer espantar a nossa maldade real

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Há um novo “mundo” literário aberto pelo “escritor que é uma biblioteca”. E Gonçalo M. Tavares anuncia-o no plural: “Mitologias”. É, portanto, grande (preparemo-nos com alegria para o que aí vem!), sem lugar e espaço definidos e não só referente a mitos clássicos.

Para que não sobrem dúvidas ao leitor, o livro abre com a imagem de uma mulher, no quintal, a quem foi cortada a cabeça e que avança sozinha à procura dos seus três filhos, com o sangue a sair-lhe do pescoço, traçando um caminho. Está criado um problema enorme para o leitor “racional-moderno”, com pouco tempo e de google na “mão”: como compreender isto e prosseguir a leitura?

Pretendendo ajudar, mas não desinteressadamente, o novo “mundo” de GMT pretende pôr em movimento um sistema mitológico especial. Interessado mais nos mitos ligados ao contemporâneo do que aos clássicos, todos eles (mitos) passarão por uma narrativa tradicional, às vezes até infantil, com uma única finalidade: cruzar o irreal com o real como se a narrativa não quisesse os mitos mas um outro mundo, o mundo do espanto, esse que pelo excesso de informação nos vai sendo tirado e que cercado por ela, torna o espanto um sinal de ignorância, logo rejeição.

Nestes treze contos de A mulher-sem-cabeça e o homem-do-mau-olhado, simultâneos e num universo onde não há passado, presente ou futuro, uma mulher pode ser uma “mulher-sem-cabeça” e um homem um “homem-do-mau-olhado”. Há liberdade total para cruzar o irreal com o real e fazer os dois personagens irem ao cinema, por exemplo. E é espantoso o que pode acontecer entre estes dois seres irreais e uma realidade que tão bem conhecemos – o cinema. O “cauteloso” homem-do-mau-olhado” decide, no final do filme, abrir os olhos de espanto como os Irmãos Lumière o fizeram na sua primeira vez (e nós já nos esquecemos, lembram-se?).

É uma narrativa rápida, que não analisa nada e deixa tudo ao leitor para interpretar. Não há reflexão sobre os acontecimentos, mas o seu contrário; provoca-se no leitor essa reflexão. A “revolução”, o “muro de Berlim”, a “Casa das Máquinas” como mitologias são, por isso, personagens com marca de contemporaneidade que nos escapam das mãos, obrigando-nos a um espanto outra vezes espontâneo, a um espanto sem a habitual destruição da explicação (da Escola?).

Neste novo mundo de GMT, o mal que se descreve é também outro. É a antítese do mal descrito nos livros “negros” d´”O Reino”, (A Máquina de Joseph Walser, 2004, Jerusalém, 2004 e Aprender a Rezar na Era da Técnica, 2007. Este mal quase o queremos, ao contrário do mal dos “livros negros”. Aqui, as maldades são tão irreais que podem tornar-se, no limite, quase divertidas, como se o escritor quisesse espantar a nossa maldade real. Como não nos espantarmos com uma avestruz que, com medo, esconde a sua cabeça, não na areia, mas dentro do crânio de uma mulher? E como não reflectir que é o medo que nos faz comportar da forma mais irracional e perigosa?

Agora em síntese, abram na página 144. A frase que ali foi deixada, de Walter Benjamin, é uma importante aproximação ao livro: “Todas as manhãs somos informados sobre o que de novo acontece à superfície da Terra. E no entanto somos cada vez mais pobres de histórias de espanto. Isso deve-se ao facto de nenhum acontecimento chegar até nós sem estar já impregnado de uma série de explicações.”  É para contrariar essas nossas manhãs que esta narrativa avança não parando nas explicações. É para contrariar essas manhã que esta narrativa é apenas guiada pela “mãe de todas as coisas”, o espanto.

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NB.1- Uma pena que à capa escolhida, uma extraordinária gravura de Charles Le Brun que mistura homem e animal, porque feita no seculo XVII, lhe falte a mistura com o elemento máquina. Se neste novo mundo de mitologias se pretende uma marca de contemporaneidade, a máquina é o elemento que falta nestes estes magníficos homens-animais.

NB.2- Curiosamente, os “cinco-meninos” que invocam os Romanov são os únicos que têm nomes próprios. Todas as personagens têm nome de ações. Não há pistas para entender isso. Talvez tenhámos de esperar pelos próximos livros para compreender esta “liberdade”.