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O homem é aquilo que come

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Se ainda não está a “comer e a beber” o número 9, da Granta, é porque não a assina e nesse caso tem mesmo de esperar até ao dia 26 para a provar e ler. Mas há aqui coisas que é já importante que saiba. O André Carrilho passou a ser o capista permanente, sucedendo a Jorge Colombo na revista que, sob o tema “Comer e Beber”, traz coisas muito apetitosas.

A começar, uma “Azeitona Verde”, conto da promissora brasileira Tatiana Salem Levy. Depois, memórias familiares chatérrimas da Alexandra Prado Coelho, mas compensadas pela “pior refeição” da vida de Richard Zimler. Extraordinário como ele conseguiu transformar um salmão assado num texto de literatura de terror (e se esta for a via do seu próximo romance, inauguro-lhe as compras, prometo!).

A meio, uma “Última Ceia” da filha da um dos nossos “grandes”, Ana Margarida de Carvalho (peço desculpa por ainda só ser capaz de lhe reconhecer essa qualidade como a maior, mas vou continuar a esforçar-me). Luís Afonso (cartunista) mete-se com o hiperativo Filipe Melo, uma espécie de Leonardo Da Vinci português, e com arte de Juan Cavia numa belíssima banda desenhada que nos conta a história divertida de uma cozinheira relutante e de um comensal paciente.

E, por fim, não querendo menosprezar o “rodízio literário” de Ricardo J. Rodrigues, do escritor angolano Sousa Jamba, do britânico David Mitchell e, em especial, a aula de culinária de Djaimila Pereira de Almeida, escritora portuguesa de origem angolana que ando de “olho”, podem perfeitamente saltar as páginas das “Notas para a minha autobiografia alimentar”, de José Tolentino Mendonça, mas nunca a das “Come chocolates, pequena”, uma extraordinária sobremesa servida, naturalmente, no final da revista pela obesa, católica e a mais adorável adoradora de gatos de todo o Portugal: Adília Lopes. É uma sobremesa simples no meio de tanto gourmet e com toda a preocupação pelo que o leitor comeu até ali. Cita, portanto, Barchelard, que, por sua vez, cita um escritor alemão que escreveu: “O homem é aquilo que come”, coisa que leu em A Terra e os Devaneios da VontadeE agora que a vossa refeição está servida, vou eu à minha.