Cinema

A arte alimentou-se da vida

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Ligada a cada história há segredos. E após os 80 anos, a mãe, começou a contar histórias aos filhos que nunca foram antes contadas. Depressões, abortos, sexo, infidelidades e tudo mais desarmante que se possa imaginar, em especial, se não esquecermos que temos o filho, Nick Willing, atrás das câmaras.

Mas o mais importante será isto: por um lado, Paula Rego apresenta-se como uma heroína feminina; por outro, assume-se como uma mulher submissa, “fazia tudo que o meu marido me mandava”. Mas esta passividade transforma-se em rebeldia na arte. Como não lembrar o caso em que ela, com um bocado de quadro em branco, desce e vê o marido aos beijos com uma bonita visita da casa, “parecia a Claudia Cardinale”, voltando rapidamente para o atelier para preencher o que faltava no quadro: uma mulher a ser comida por cães.

Poder-se-ia pensar, em particular para quem ainda não viu o documentário, que Paula Rego faz tudo para chocar. Não. É apenas crua. Sendo Nick Willing, o filho, que está por trás da câmara, pelo menos eu pensava que tudo ficasse pela rama. Mas este documentário abre, se não tudo, muitas portas e janelas. Fundamentalmente, expõe uma surpreendente verdade: com Paula Rego a vida não tornou a arte num vácuo. Foi tudo exatamente ao contrário. Foram os acontecimentos e os contextos que moldaram a sua arte. Este documentário, por isso, não é só sobre a vida dela. Até aos críticos tem de agradar.

Paula Rego, Histórias e Segredos

Título original: Paula Rego, Secrets and Stories
De: Nick Willing
Género: Documentário
Outros dados: GB, 2017, Cores, 92 min.