Livros

O “húmus” das cartas

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A correspondência de Brandão e Pascoaes transmite-nos a agradável sensação de estarmos a assistir a um documentário da vida privada de ambos e da coletiva da época. Contam-se histórias (carta 34, a doença de Junqueiro), revela-se uma amizade mútua sólida (cartas 185 e 191), criticam-se “astros” do firmamento literário da época (cartas 4, 159 e 170, nesta Brandão mostra completa indiferença para com António Pedro…), mas, mais importante, deixam-se pistas sobre a génese das obras fundamentais dos dois.

Fixo-me em Húmus, de cuja génese pouco se sabe. Da análise às cartas, decorre que Guilherme Castilho, um dos mais importantes biógrafos de Brandão, está errado quando escreve que a obra foi iniciada em Novembro de 1915 e terminada em Dezembro de 1916.

Na carta 6, de 9/11/1914, escrevia Pascoaes “Já sei que Húmus é admirável!“.  E sobre a data de conclusão, fixada no livro como “Foz do Douro 1916”, a verdade é que, na carta 10, de Abril de 1917, Pascoaes escreve “Muito desejo […] que tenha o Húmus concluído“.

Ora, sabendo-se que Húmus foi publicado em Dezembro de 1917 (Pascoaes acusa a receção da obra em 14/1/1918, carta 11), entre a hipotética data de conclusão e a publicação do livro dista um ano, tempo excessivo para estar só em causa um problema de atraso na revisão de provas tipográficas. Fica sugerida, então, uma outra data de conclusão para Húmus que não a do ano de 1916: o ano seguinte (1917). 

Sabendo-se que houve três edições de Húmus, infelizmente a correspondência não ajuda a compreender bem todos esses momentos. Importará aqui a leitura da carta 115, de Brandão a Pascoaes, datada 25/04/1926, onde pergunta “Recebeu as novas edições da […] e do Húmus?“, sugerindo, assim, que a publicação da edição ne varietur do livro terá sido no segundo trimestre de 1926.

O resto da leitura da correspondência é para ficar como Pascoaes ao reler o Húmus: “não é brincadeira arrostar com tantas páginas de tal grandeza dramática. Sinto-me esmagado e deslumbrado”.

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carta 11
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Carta 10
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Carta 6
Livros

150 anos

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Foi muito apreciado no seu tempo, pouco lido depois e agora começa a ser recuperado e estudado como um “moderno”. Foi também o único que passou Camilo na dureza do chicote . O detalhe sobre o escritor dos Maias, nas suas “Memórias”, que toda a vida usou “bentinhos ao pescoço” é maravilhoso.

Nasceu há, exactamente, 150 anos na Foz do Douro, numa família de pescadores, frequentou o Curso de Letras, mas acabou por enveredar por uma carreira militar. Escreveu ficção, teatro, livros de viagens, memórias, dialogou com os movimentos literários do seu tempo, conviveu com o grupo de António Nobre, Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, José Rodrigues Miguéis, mas nunca comunicou com Pessoa, apesar de ambos fingirem não se lerem. Morreu aos 63 anos, de um aneurisma da aorta.

É dele um dos livros mais ferozes de toda a literatura portuguesa: Húmus, uma obra inclassificável que rescreveu por duas vezes, totalmente experimental, um combate metafísico com o absurdo da existência, “um longo poema em prosa que prescinde de história” (Pedro Eiras) . Escreveu ali isto:

“Todo o trabalho insano é este: reduzir a vida a uma insignificância, edificar um muro feito de pequenas coisas diante da vida. Tapá-la, escondê-la, esquecê-la (…) Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste…”.