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Jean d´Ormesson (1925-2017)

Ninguém nos explicou melhor as diferenças entre jornalismo e literatura (e a explicação é deliciosa). Ex-director do diário francês Le Figaro, o escritor Jean d´Ormesson defendeu ambos, mas sempre separados — deixou, aliás, de escrever quando assumiu a direção do jornal e nunca aconselhou aspirantes de escritores a estagiarem no jornalismo. Na passagem por Portugal, em 2007, no Instituto Franco-Português, a propósito do seu livro “A criação do Mundo”, deixou pérolas e é daí que se recorda isto tudo.

Para d´Ormesson, a literatura e o jornalismo estão muito próximos, embora nas margens opostas do tempo: o jornalista persegue a urgência, o escritor persegue o essencial. Para exemplificar a proximidade, refere, por exemplo, Heródoto e Xenofonte como os primeiros jornalistas dos gregos, mas também Voltaire, Victor Hugo, grandes jornalistas do seu tempo, e Émile Zola, este, escritor de um só artigo intitulado «J´Accuse», sobre o célebre caso Dreyfus. O único problema é, tal como dizia Oscar Wilde, «o jornalismo não é legível e a literatura não é lida».

Aos jovens que queriam ser escritores, Jean d´Ormesson, que morreu ontem com 92 anos, desaconselhava vivamente que se tornassem jornalistas e sugeria outras profissões, como, por exemplo, motoristas de táxi, que considerava uma excelente profissão para se ser escritor, porque se pode escrever enquanto se espera o cliente.

Apontava ainda outras diferenças como o facto de o jornalismo «gostar do que corre mal» ao passo que «só os maus escritores é que gostam de coisas extraordinárias». O bom escritor, dizia Jean d´Ormesson, interessa-se por escrever sobre a banalidade da vida ou, dito de outra forma, o que interessa ao jornalista é a vida, e o que interessa ao escritor é a morte.

Mas o que verdadeiramente, para ele, distinguia o jornalismo da literatura era a abordagem do tempo. Entendia a eternidade como a ausência de tempo presente, porque toda a vida vivemos sempre no presente, passamos o tempo no presente, mas este não existe, independentemente de falarmos muito depressa para o testemunharmos. Para Jean d´Ormesson, nunca conseguiremos provar o presente. Estamos irremediavelmente ou passado, ou no futuro.

Na sua perspectiva, o tempo tinha duas grandes categorias, sendo a primeira «o tempo que passa» e a segunda «o tempo que dura». Tudo passa na vida, excepto o tempo. Tudo passa, mas o tempo está sempre lá. Proust andou em busca dele em nove volumes, lembrava sempre.

Por isso, defendeu até ao fim que o jornalismo e a literatura estão nas duas margens opostas do tempo: o jornalismo na do tempo que passa e a literatura na do tempo que dura. Ainda não consegui discordar.