Livros

Oração a Ninguém

23755163_10211173949650003_1628178324209144354_n.jpg

Paul Celan nascia neste dia em 1920 e eu acho que este livro, que não é dele — uma conversa imaginada a três pelo João Barrento onde também meteu ao barulho o Walter Benjamin — um uma enorme “porta de entrada” para a sua poesia. Ainda que comece a explicar tudo pelo fim.]

Em Celan, o suicídio parece vir como o prolongamento necessário do silenciamento da Linguagem, não como gesto niilista, mas antes como um rito sacrificial, no sentido do “ágon” da tragédia grega em que a morte é uma apoteose — certamente do absurdo, a única certeza do poeta em relação ao humano. Se entendermos assim o gesto final de Paul Celan ao entregar-se às águas lustrais do Sena, em 20 ou 21 de Abril de 1970, podemos ler melhor a sua poesia como uma oração (em missa negra) só possível depois do abandono e da morte de Deus. Oração a ninguém, com maiúscula, àquele Deus do Nada de que fala o poema “Salmo”, do livro “Rosa de Ninguém”:

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro
Ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado Sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção
a ti.

(João Barrento, Ler o Que Não Foi Escrito -Conversa inacabada entre Walter Benjamin e Paul Celan, edição: Cotovia, julho de 2005, pp. 55/56)