Música

Thurston Moore largou o chá

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Thurston Moore tem 58 anos e já disse que quando tinha 20 ou 30 anos viveu coisas fantásticas, que está muito agradecido, mas ponto final parágrafo. E isso nota-se no seu novo álbum, Rock N’ Roll Consciousness, veículo de saudável sensação de estamos a escutar qualquer coisa que nos é familiar, embora não da forma como já a ouvíramos. Estão lá os solos de guitarra que podiam ser dos Sonic Youth, mas mais longos, diluídos e consistentes.

São cinco longas canções de grande envolvimento melódico, nervosa secção rítmica e jogos de contenção em torno da guitarra de Moore. O single “Cease fire” surge como faixa escondida e no digital há que o procurar, pois está fora do álbum. Todo o trabalho conflui para uma (interrogativa) acalmia. Não aquela atual do rock, mas uma onde seja outra vez possível experimentá-lo com rigor e inovação.

É um facto que, hoje, o rock já não está com o mesmo à vontade no centro do mercado. O predomínio ficou por conta do hip-hop e R&B e até Moore, o ano passado, por influência da filha, não ouviu nenhum álbum mais vezes do que o A Seat at the Table, de Solange. O rock atual está transformado numa cultura de privilégios (U2, Radiohead, etc..) e acomodou-se, enquanto o hip-hop e o R&B, mais conotados com lugares de exclusão, lutam arduamente. Com certeza por isso, no novo registo, acabou por trabalhar com alguém que conhece bem a receita dessa vitalidade, o produtor inglês Paul Epworth, conhecido por assinar produções de sucesso para Adele, Rihanna, Florence & The Machine ou Coldplay.

O álbum foi registado no estúdio que já foi igreja (The Church Studios) com Thurston, na companhia de Steve Shelley (bateria), Debbie Googe (baixo e que baixo…) e James Sedwards (guitarra), a registar as canções em apenas seis dias, em material analógico que já havia sido utilizado pelos Pink Floyd ou Rolling Stones. Rock n’ Roll Consciousness, até pelo nome, não podia pedir melhor ambiente. Os quatro músicos estão em entrosamento total, mistura de serenidade e agitação, e podem bem ser a banda que há muito Moore procurava (e precisava, já agora…).

Definitivamente, o melhor álbum a solo de Thurston Moore, o que até não era coisa difícil depois do “baixar da guarda” com Psychic Hearts (1995), Trees Outside The Academy (2007) e, em particular, com o inexplicável Demolished Thoughts (2011). Mas agora tudo correu bem e logo à primeira canção. “Exalted”, aliás, explica tudo. Uma longa odisseia de quase doze minutos, vai de uma secção à seguinte sem regressar à secção anterior, numa ideia de estrutura experimental para abordar os assuntos do espírito. Há tempo para falar. Mais concretamente, sete minutos depois de tudo começar. E o resto também é assim, improvisação sobre sucessão de secções em canções longas sob o desafio de dotá-las de lógica e consistência.

Desafiante, conseguido e guloso. E importante. É que o espartilho da arquitectura rock atual não exclui as possibilidades de abalo sísmico formal, agora que Thuston Moore já se deixou do chá em salão vicentino.