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74 anos e “os tempos não vão bons para nós, os mortos”

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(Lembrando Manuel António Pina, que hoje faria 74 anos, e que vai ter o espólio digitalizado – https://goo.gl/QhjZGY – através deste importante ensaio de Rui Laje.)

De poeta de “série B” para o “centro” apenas com um movimento: a publicação, em 1999, de Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança pela Assírio & Alvim. Foi assim que se resolveu o problema de Manuel António Pina passar a ter validação inter partes e visibilidade mediática. O que nunca se resolveu foi o problema do enquadramento geracional de Pina, que começou a publicar nos anos 70.

Com clareza, estudo profundo (apaixonado) e “fina” escrita, Rui Lage aborda neste ensaio com o nome do poeta, o lugar de Pina “à margem dos caudais e afluentes da poesia portuguesa dos últimos cinquenta anos”, afastando-o do pós-modernismo e do prós-historicismo, inserindo a sua poesia na família “das poéticas da suspeita e do ceticismo”.

Rui Lage vê um Pina descrente dos dogmas da Razão, desconfiado da consistência do real (porém, sempre a rir) e que nos começou a falar “desde” a morte. E, de facto, o seu livro inaugural, Ainda Não é o Fim Nem o Principio do Mundo Calma é Apenas Um Pouco Tarde (1974), abre assim: “Os tempos não vão bons para nós, os mortos”, que é o mesmo que dizer que “o homem contemporâneo já nasce velho de tanto passado, de tanta história” (Lage, p.8), que só a época dos Antigos é jovem e a presente já só serve para acumular. Um pessimismo cultural ligado à impossibilidade do novo que encontramos bem vincado neste verso: “Já fiz tudo, já aqui estive, já li tudo”.

Laje não aceita o epíteto a Pina de pós-modernista (nem o poeta, aliás), preferindo sugerir uma poesia de impossibilidade. Afinal, Aquele Que Quer Morrer (1978) só no título enuncia exatamente isso, mas ao contrário dos pós-modernista o “recuo” não leva vontade alguma de rutura. Sim, nota-se-lhe um risinho nietzschiano, mas “o que mais lhe importa é a interrogação do ser, a questão do sentido da existência, da ausência e presença do mistério originário na sua relação com a linguagem humana”.

Aos pós-modernismo, Pina prefere um triste e desiludido sossego, a “paz dos cemitérios”. Rui Lage lê um sujeito que se instala na indiferença, no cansaço de existir e expressa na sua poesia um “novo mal do século que é a rotina, os horários, a carreira” (Lage, p. 26). As palavras, essas, acumulam-se numa vala comum, enquanto o poeta é um órfão. Escreveu Pina, em 2003, em Os Livros“cheguei demasiado tarde”, restando-lhe apontar saídas do real com a pré e a pós literatura, se necessário, pois o poema é agora heterónimo do poema (assim também evitando, segundo Lage, o parricídio desejado, à época, de Fernando Pessoa…).

Mas “as palavras não chegam”, escreveu Pina que também escreveu muitas vezes a palavra “silêncio”. A falar ou a estar calado faltava-lhe sempre alguma coisa (“faltas-me tu, poesia cheia de truques”). Esta fadiga linguistica Lage encontra-a em todos os livros, sublinhando o desabafo irónico que lê em Um Sítio Onde Pousar A Cabeça (1991): “um bancário calculava/ que tínheis curto saldo/ de metáforas”. Escreverá Pina, mais tarde, em 1999, no Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança: “É o que falta que fala”. Ou seja, “a única magia está onde a poesia não chega” (Lage, p. 41). 

E, de facto, Pina foi sempre um sujeito descrente do pudor do poema/linguagem. Ao autoconvencimento sempre preferiu a dúvida e aqui vai também afastar-se da recusa geracional pela metafisica a qual vai misturar com o quotidiano doméstico. Escreverá, em 1988, em A Caminho de Casa: “Às vezes quase lhe toco/ quando não me perturbam os meus pensamentos. / E talvez quando faço/ sem dar por isso os gestos de todos os dias/ talvez então esteja muito perto sem o saber.” Mas se “É o que falta que fala”, Lage vê um Pina a ir mais longe do que Pessoa. Vê um eu/outro que “já não se presta a acomodar o outro no eu (…) materialmente está fora de si” (p.87).

Há muito mais no livro, o primeiro de uma série de coleções de ensaios da Imprensa da Universidade de Coimbra, como a explicação do jogo das oposições binárias “orientais”, o fundo filosófico, a importância da ironia ou mesmo a da física quântica na poesia de Pina.  Mas aqui prossigo para a conclusão de Rui Lage: “Toda a poesia de Manuel António Pina pode ser lida como uma longa e nunca concluída elegia do regresso a casa que é na verdade um não cessar de partir para a morte. Caminhar para a morte é caminhar para casa. Para a casa da infância. Sem êxtase” (p. 96). 

A melancolia extrema da poesia Pina, que “tem mais a ver com o modo como ela nos reenvia para a consciência do seu desamparo” (Luís Quintais) fica, aqui, com um importante estudo, já longe da incompreensão de Maria Teresa Horta que descartou Pina com a frase lapidar: “intrigantemente monótono” (in Expresso, 24 de Agosto de 1974, p.24).