Música

O Sgt. Pepper faz 50 anos

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De acordo com o calendário gregoriano, 1967 foi um “ano comum”, isto é, um ano não bissexto, de 365 dias. Mas não atribuamos demasiadas responsabilidades ao Papa Gregório XIII. De facto, e ao contrário do que achou Sua Santidade, o ano de 1967 foi absurdamente fértil. Entre muitos factos a registar, os Beatles apresentaram ao mundo Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band com três missões. Primeiro, a de abraçar com largo alcance de braços, do oriente ao ocidente, o “Summer of Love”. A segunda, a de inventarem um tal Sgt. Pepper e serem “apenas” a sua banda para se libertarem um pouco do peso dos Beatles. E, por fim, para cederem a George Harrison que ameaçava abandonar a banda se as digressões não terminassem definitivamente.

O que aconteceu é conhecido. Apoiados no visionário trabalho de Brian Wilson e dos Beach Boys em Pet Soundsos Beatles evoluíram no estúdio universos e na criatividade viajaram a uma velocidade estonteante. Em entrevista recente à Mojo, Macca fala do oitavo trabalho como “um álbum tão ‘importante’ que, por vezes, as pessoas ouvem a reputação em vez de ouvirem o disco”.

Como era inevitável, aos 50 anos o álbum recebe um lifting e ressurge em novas edições, com mistura estéreo da autoria de Giles Martin, filho do produtor dos Beatles, George Martin, já falecido. Os presentes, consoante as bolsas, são: 1) disco único com a nova mistura (vinil e CD); 2) um álbum duplo em que, ao original, se acrescenta um disco de extras; 3) uma edição de luxo composta de seis discos (o original, três de extras, um DVD com The Making of Sgt. Pepper e um Blu-Ray em Surround 5.1).

Nas novidades, Giles Martin já não quer a bateria de Ringo deslocada para um dos canais, mas a ressoar com maior profundidade e envolvência em “Being for the benefit of Mr. Kyte”. Uma “Penny Lane” mais perto da voz “primitivamente” doce que Lennon ofereceu ao tema da sua infância e mais apoiada por uma guitarra acústica a acentuar a melancolia (mas temos quatro na versão na edição “Super Deluxe”). E um novo rumo para “Strawberry fields” que foi afastada da nostalgia para se pronunciar mais como um convite para um sonho psicadélico colectivo. Nota-se, contudo, o respeitinho máximo pelo génio da produção e pela beleza da composição que foi “A day in the life” (versos inspirados na leitura do Daily Mail) — as alterações não são notadas.

1967 foi, indiscutivelmente, um daqueles anos de viragem e ruptura que não deixaria pedra sobre pedra do que para trás ficara e que marcaria irremediavelmente as quatro décadas que, até hoje, se lhe seguiram (e, por isso, se falou antes deste álbum, aqui, de um outro…). Mas calma! Enquanto marco simbólico do ano, a importância de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band permanece na ressonância na cultura pop, mas até os próprios Beatles já viram melhores dias. O que é este album encostado aos singles “Penny Lane”/”Strawberry Fields Forever”, “All You Need Is Love”/”Baby You’re A Rich Man” e “Hello Goodbye/”I Am The Walrus” ? E não se esqueçam que, com menos horas de estúdios (aqui foram gastas umas inacreditáveis 700!), os Beatles, no ano anterior, haviam feito o Revolver

É certo que este Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band quase ia enlouquecendo aquele a quem deve mais, Brian Wilson, mas se até ele ultrapassou o grave problema psiquiátrico causado pela angústia de o não ter feito, lembrando-se das sessões de Smile e reouvindo o Revolver, oiçam o álbum que já têm em casa e não se desgracem.