Música

“I hate my brother and he hates me/That’s the way it’s supposed to be”

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Eu sei que poucos concordam, mas “Amputation”, o single que dezanove anos depois anunciou o regresso dos The Jesus and Mary Chain, fê-lo na perfeição. Um riff longo e zangado de William Reid e Jim a estabelecer devidamente o desafio: “Try to win your interest back / But you ain’t having none of that”. 

Não se aceita mal a ideia de uma lógica circular em busca do passado para antever tempos que ainda não chegaram. É uma espécie de regresso ao futuro com profunda raiva pela música pop que se ouve nas rádios. Talvez, por isso, a segunda faixa do álbum, “War on Peace”, corra muito depressa para os braços dos Velvet Underground e nos descanse sobre a crise existencial da banda: “What if I run?/Where would I run to?….fuck it”.

Há erros que se corrigem e “All This Pass”, uma grande canção, mal utilizada na banda sonora da série “Heroes”, tem nova roupagem e muito ganho. As guitarras de “Always Sad”, barulhentas, desiguais e desorientadoras, desenham uma história de dois amantes distantes, com Reid a disparar à convidada, Bernadette Denning, um interessante “You ain’t like those other girls/There’s nothing like you in this world/You got something more than curls…I think I’m always gonna be sad”. 

Vem, depois, Isabel Campbell, “Song for a Secret”, algo entre “Sometimes Allays” e “Just Like Honey” mas ao mesmo tempo e, logo depois, uma nova aposta nos duetos em “Black and Blues”, com uma Sky Ferreira em estilo Spacemen 3.

Ausentes, mas não distantes do mundo é como provam estar no essencial “Los Feliz cantar (Blues and Greens)”, invocação de uma idílica paisagem por Califórnia, com um coro deliciado a cantar “God bless America!” e, logo seguida, um soco no estômago: “In the land of the free/Wishing they were dead”.

“Simian Split” é o mais provocativo tema do álbum (“I killed Kurt Cobain/ I put the shot right through his brain/ And his wife gave me the drug”) e “Facing Up To the Facts” um grande resumo da vida desta banda: “I hate my brother and he hates me/That’s the way it’s supposed to be.”

De um lugar onde os óculos escuros nunca saem da cara, o cigarro é o elemento que quebra o gelo e a iluminação é uma luz strobe, os JAMC regressam e a noticia até nem é só boa para nós. Cheguem ao fim do álbum (“Can not Stop the Rock”) e confiram se é ou não verdade que a irmã/mediadora, Linda, obriga a um grito de reunião prometedor: “I’m falling and I’m happy!”. Se calhar, vale a pena voltar a insistir.