Música

A normalidade não chegava

Há 31 anos as coisas estavam assim: o punk tinha acabado de “varrer” o Reino Unido, presumivelmente morto o rock, e a pop assumia a necessidade de se apresentar em formas e sonoridades muito diferentes. 

Ofereciam-nos a new wave e as suas mutações (desde os Talking Heads à Nena), o synth pop (em particular, dos Orchestral Manoeuvres in The Dark), os estrondosos neoromânticos (Spandau Ballet e Duran Duran) e os neoclássicos Prefab Sprout. Todos com perspetivas válidas à entrada dos anos 80, mas os Smiths trariam outra proposta para a pop quando lançaram o single que inaugurou a sua discografia, “Hand in Glove”, em maio de 1983, falando do que ela nunca falou e renovando-a como tão pouco ela esperaria. Três anos depois, e no dia de hoje, declaravam que a normalidade não chegava com “The Queen Is Dead”.

A ultrapassagem de “Born in The USA”, de Bruce Springsteen, e de “Brothers in Arms”, dos Dire Straits, foi feita com estrondo e com atropelamento violento seguido de fuga à caridade da era Thatcher, o Live Aid. Lembram-se como Morrissey, na altura, ironizava? “Pode-se manifestar preocupação pelas pessoas da Etiópia, mas submeter as pessoas de Inglaterra a uma tortura diária é algo de completamente diferente”…

Com Jonhnny Marr a começar a pensar que a sua guitarra não precisa da mente do vocalista dos Smiths – nunca percebeu o que aconteceu à versão que entregou a Morrissey de “Some Girls Are Bigger Than Others”… – este álbum deu para tudo, para espantar e para zangar. Até o próprio Geoff Travis, o homem forte da editora que os Smiths haveriam de mandar às urtigas, a Rough Trade, serviu de inspiração de “Frankly, Mr Shankly”, tema meticulosamente metido entre o tema título  do álbum que hoje celebramos e… “I Know It’s Over”.

31 anos depois The Queen os Dead é, ainda, o mais válido discurso sobre o estado da nação da Rainha, sucedendo a God Save the Queen, dos Sex Pistols. Ambos críticas explícitas da monarquia, elegias de um determinado “status quo” e pilar de uma ideia de música independente, dura e de raiva sempre à procura da nossa resposta: ainda os ouvimos?