Música

A história de dois rapazes feitos um para o outro

Captura de ecrã 2017-10-24, às 06.59.00.pngVisto a esta distancia, foi terrível essa ingratidão de nunca lhes terem dado aquilo que é próprio de reis e rainhas: os primeiros lugares dos “charts” (“It’s an absolute political slice of fascism to gag the Smiths”).

E, francamente, meus caros Shanklys, o pedido de Morrissey foi muito franco e directo (“Fame fame fatal fame It can play hideous tricks on the brain—but nonetheless he’d rather be famous than righteous or holy”).

Também não gostei nada que, no tempo, não os tivessem reconhecido ao lado dos Beatles e dos Stones e, ainda por cima, passassem a gostar mais de DJ´s (“Hang the blessed DJ for constantly playing music that says nothing to me about my life”).

E o que dizer do esforço da intelectualização do “No Future” do Punk? Tudo oferecido de bandeja para que não fosse preciso terem esperado até este Brexit para perceberem o que se passa (“The Queen is Dead”).

Mas como a esperança é sempre a última a perder, é-vos agora oferecido para remissão, com o irritante selo “DELUXE”, uma box de The Queen Is Dead remasterizado, interessantes demos, b-sides, a gravação do concerto de Boston, em agosto de 1986 e o DVD promocional de Derek Jarman’s (“There Is a Light That Never Goes Out”).

 

Música

A normalidade não chegava

Há 31 anos as coisas estavam assim: o punk tinha acabado de “varrer” o Reino Unido, presumivelmente morto o rock, e a pop assumia a necessidade de se apresentar em formas e sonoridades muito diferentes. 

Ofereciam-nos a new wave e as suas mutações (desde os Talking Heads à Nena), o synth pop (em particular, dos Orchestral Manoeuvres in The Dark), os estrondosos neoromânticos (Spandau Ballet e Duran Duran) e os neoclássicos Prefab Sprout. Todos com perspetivas válidas à entrada dos anos 80, mas os Smiths trariam outra proposta para a pop quando lançaram o single que inaugurou a sua discografia, “Hand in Glove”, em maio de 1983, falando do que ela nunca falou e renovando-a como tão pouco ela esperaria. Três anos depois, e no dia de hoje, declaravam que a normalidade não chegava com “The Queen Is Dead”.

A ultrapassagem de “Born in The USA”, de Bruce Springsteen, e de “Brothers in Arms”, dos Dire Straits, foi feita com estrondo e com atropelamento violento seguido de fuga à caridade da era Thatcher, o Live Aid. Lembram-se como Morrissey, na altura, ironizava? “Pode-se manifestar preocupação pelas pessoas da Etiópia, mas submeter as pessoas de Inglaterra a uma tortura diária é algo de completamente diferente”…

Com Jonhnny Marr a começar a pensar que a sua guitarra não precisa da mente do vocalista dos Smiths – nunca percebeu o que aconteceu à versão que entregou a Morrissey de “Some Girls Are Bigger Than Others”… – este álbum deu para tudo, para espantar e para zangar. Até o próprio Geoff Travis, o homem forte da editora que os Smiths haveriam de mandar às urtigas, a Rough Trade, serviu de inspiração de “Frankly, Mr Shankly”, tema meticulosamente metido entre o tema título  do álbum que hoje celebramos e… “I Know It’s Over”.

31 anos depois The Queen os Dead é, ainda, o mais válido discurso sobre o estado da nação da Rainha, sucedendo a God Save the Queen, dos Sex Pistols. Ambos críticas explícitas da monarquia, elegias de um determinado “status quo” e pilar de uma ideia de música independente, dura e de raiva sempre à procura da nossa resposta: ainda os ouvimos?